Este blog não pretende absolutamente nada, não tem nenhum compromisso com a verdade, não é um passatempo, não é um diário e nem parte de estudos ou reflexões profundas, nada disso.
É gavetagem pura, sem qualquer razão de existir, mas existe mesmo assim, como a maioria das coisas.
o fim é assim. não tem cheiro de limão, mas pode ter, se eu pensar muito que sim. ainda estou acordada, mas com uma sensação estranha. pode ser que haja alguns fantasmas. um brilho azul-invisível quase não se nota. o frio, dos pés às canelas, apenas. seu barco de costas pra mim. seu caminho que eu só vejo até ali. será que você vai cair? será que vai se virar? será que você vai aprender navegar? será que um dia você dá a volta e a gente ainda volta a se ver? a noite tá virando outro dia, nosso fio esticado vai romper.
entrei no cemiterio com as lágrimas rolando pela minha face de repente começou a chover e as gotas da chuva se misturavam às gotas das minhas lágrimas e ambas escorriam para o chão aonde eu ajoelhado chorava em frente do túmulo da minha amada morre-se assim como se faz um atchim e de supetão lá vem o rabecão e morre-se assim como se faz um atchim e de supetão lá vem o rabecão não não não não não não não não não não não não sim sim sim sim sim sim sim sim sim mas porém contudo todavia no entanto outrossim morre-se assim como se faz um atchim e de supetão lá vem o rabecão e morre-se assim como se faz um atchim e de supetão lá vem o rabecão não não não não não não não não não não não não sim sim sim sim sim sim sim sim sim mas porém contudo todavia no entanto outrossim sou médico legista do necrotério desta capital vieram vários cadáveres o primeiro levou 24 balas perdidas o segundo foi atropelado o terceiro morreu por excesso de fumar cigarros de nicotina o quarto morreu por altas doses alcoolicas não foi para os alcoolicos anonimos eis o que deu mas o quarto o quinto cadáver morreu de olhos arregalados e com olhos arregalados permaneceu eu não consigo fechar os seus olhos por mais técnicas que eu tenha como médico legista morreu por oversode de cocaína crack oxi não foi para o narcóticos anônimos eis o que deu atenção atenção uma bala disparada la da rua dos paqueradores e travestis zuniu pelos ares e foi furar o crânio daquela velha senhora que lia sua biblia lá no morumbiiiiiiaaaaa morre-se assim como se faz um atchim e de supetão lá vem o rabecão êêéé e morre-se assim como se faz um atchim e de supetão lá vem o rabecão não não não não não não não não não não não não sim sim sim sim sim sim sim sim sim mas porém contudo todavia no entanto outrossim morre-se assim como se faz um atchim e de supetão lá vem o rabecão e morre-se assim como se faz um atchim e de supetão hu lá vem o rabecão não não não não não não não não não não não não sim sim sim sim sim sim sim sim sim mas porém contudo todavia no entanto outrossim não gozem lamartine babo tem uma marchinha chamada ab-surdo separando o ab do surdo e nessa marchinha a gente ouve o seguinte verso no cemitério, pra se viver é preciso primeiro falecer e augusto comte que sempre afirmou que o mundo dos vivos é cada vez mais governado pelo mundo dos mortos ao que o barão de itararé respondeu dizendo que nada o mundo dos vivos é cada vez mais governado pelos mais vivos ainda e lá em evora num cemiterio medieval onde um crânio jaz ao lado de outro crânio lê-se numa tabuleta nos os ossos esperamos pelos vossos ah morre-se assim como se faz um atchim e de supetão lá vem o rabecão êêéé e morre-se assim como se faz um atchim e de supetão lá vem o rabecão não não não não não não não não não não não não sim sim sim sim sim sim sim sim sim mas porém contudo todavia no entanto outrossim morre-se assim como se faz um atchim e de supetão lá vem o rabecão e morre-se assim como se faz um atchim e de supetão lá vem o rabecão não não não não não não não não não não não não sim sim sim sim sim sim sim sim sim mas porém contudo todavia no entanto outrossim na alemanha o nazismo já surgia mas essa cena passa-se na polônia num velho gueto onde um rabino em sua cama ja estava quase morrendo e preparando-se para ir a outra dimensão os judeus frequentadores de sua sinagoga cercavam sua cama de moribundo para ouvirem últimas palavras e seguiu em fila indiana pelas escadarias quebradas daquele velho gueto até o 48º quarteirão todos em fila indiana como judeus bem comportados para ouvirem as últimas palavras do rabino então o rabino disse no último alento a vida a vida é como uma xícara de chá aí passou de ouvido pra ouvido sussurrado a vida é como uma xicara de chá a vida é como uma xicara de chá a vida é como uma xicara de chá eaea acoxicdexá chegou no último judeu ali no ultimo 48º quarteirão e a pergunta voltou meio irritante mas que fazer religião da dúvida porquê que a vida é como uma xicara de cha e a pergunta voltou de ouvido para ouvido surrurrada porquê que a vida é como uma xicara de cha porquê que a vi é como uma xica de cha porquê que a vi é como uma xic de cha chegou aos ouvidos do rabino pronto para abandonar esta dimensão rabi porque que a vida é como uma xicara de chá aí o rabino num último alento de força soergueu-se em seus cotovelos e disse está bem está bem então a vida não é como uma xícara de chá
um saco de balas soft sortidas, algumas entaladas na garganta. uma casa perto da praça com os brinquedos gigantes, uma rede de cordas bambas para trepar e um escorregador de farpas para descer. um primo e um irmão, para nos salvar e bater, com força. no canto do olho, um bebê. uma cozinha de varanda pro quintal, um pé de mixirica, balanço e imundice de terra. alegria. alegria. alegria para me receber. pouco amor nos gestos maiores. muita porrada. muita diversão. um apagão e você estava mais perto, mas cortaram seu cabelo. porquê? família, graça, granada. cachoeirinha. na lembrança embaçada, nossas casas cheias de entulho, uma organização que não chegava nunca e nada tinha dono. falar "meu" parecia pecado e dava um medo danado de perder sei lá o quê. seus olhos ali, impecáveis, como se nunca tivessem chorado. sua alegria firme. sua disposição. sua memória apagada. aparecida, o arroz era puro sal. ô fátima, não bate na menina, não. mera, desgraçada, nós vamos arregaçar sua filha. dona leonor, o joel cagou no chão de novo. pituxa... e nunca chegava. cigana, tiana, anta, gata, catuxa e bosta, muita bosta. tinha o dia de fazer angu e os cachorros comiam até pedra. as festas aconteciam paralelas. nós éramos um tom abaixo da cantoria. churrasqueira eram tijolos no chão e ficava queimando até no outro dia. a gente acordava mais cedo e aproveitava as brasas para brincar, riscava o terreiro de carvão, comia o que ficou no espeto. dividir com os cachorros era um prazer imenso. a roupa era pouca, o pé era puro chão. banho de mangueira, cimento, mato, montanha, risco no asfalto era garrafão. passava-se muita coisa. nós víamos tudo e não sabíamos nada ou quase nada. hoje eu vejo, hoje, que somos nós e ainda somos nós. o sangue ainda, quase sempre, quente. não nos fazia falta o que não existia, mas a raiva estava lá. a minha e a sua. eu vi, você viu. seu choro, aquele tão único. e nas suas mãos, no escuro, a correntinha que você tinha ganho a pouco. eu não sabia nenhuma palavra, desculpe. eu ainda não sei. metade da minha cama não ia bastar, mas eu também não tinha muito mais. quando eu pensava "mãe", eu só via que você se parecia mais com a minha do que eu... e foda-se. o belmont no banheiro. o beijo caiu no poço. o quê que você quer da vida? responde meu caderno. barraquinha, fred, flávio, pedrinho, wendell. o amor que a gente achava e fazia, para contar e esconder, como uma tragédia menor. saias iguais, cabelo de lado, batom. o chão do quarto que não se podia ter, os discos e o que eles diziam, os amigos, enfim, outras vidas, graças a deus. a distância era mínima e era muita. as viagens eras múltiplas, difíceis até de lembrar. as comemorações eram rígidas nas tradições. impressões de aniversário e pinga com sprite, até vomitar.
eu já não me lembrava de como é terrível esse seu jeito de me olhar, depois de tudo como se fosse nada ou como se fosse coisa ruim e coisa ruim fosse eu. é assim, de cima pra baixo, como se você fosse muito maior do que é de verdade. como se eu não pudesse com o pisão que você só não dá porquê nem isso. como se até falar "não" fosse consideração a mais. eu sinto muito por isso que eu sinto e você não. eu sinto muito por você talvez não ter essa opção. eu sinto demais e tudo de uma vez. é bom pensar que foi bom lembrar, para saborear, deixar-me viajar no bom que podia ser e... foi bom saber , doído e a tempo, o que eu já sabia e que não poderia ir contra. eu aceito, então, a distância que você me deu aí do alto, a discordância da memória e a resolução da história que você não conta e nem precisa contar.
O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos
O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
ótimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim, assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles
Vai ter capitais
países
suspeitas, como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados
Ah, o medo vai ter tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente o que o medo quer)
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos
as músicas antes dos discos eram melhores e muitas mais, como as poesias antes dos livros, no tempo da voz, no tempo da paz de não ter que ter pra guardar pra depois. a hora era a hora ou não era. a dança e o teatro sem ensaio, o palco no tempo da roda, o tempo que foi ficando pequeno até caber num produto. amor não vendia, no máximo passava o chapéu e nem chapéu tinha, nem chanel, nem chapinha. o céu não se via do fundo do poço, nem era arranhado de arranhacéu. o fogo no chão era moda e não tinha trem, nem avião, nem viaduto. qualquer passagem era a pé, olhar pela janela era olhar, só, e era tudo mais bonito. antes de alguém gravar ou grafar o primeiro grito, era mais sincero gritar.
"Parece que foi ontem. Tudo parecia alguma coisa. O dia parecia noite. E o vinho parecia rosas. Até parece mentira, tudo parecia alguma coisa. O tempo parecia pouco, e a gente se parecia muito. A dor, sobretudo, parecia prazer. Parecer era tudo que as coisas sabiam fazer. O próximo, eu mesmo. Tão fácil ser semelhante, quando eu tinha um espelho pra me servir de exemplo. Mas vice versa e vide a vida. Nada se parece com nada. A fita não coincide com a tragédia encenada. Parece que foi ontem. O resto, as próprias coisas contem."
Incomunicável Senhor Emanuel Kalebre, já que não há outra maneira de falar com vossa senhoria, vai por aqui mesmo um link que me fez pensar em você em primeiro lugar, só porque você duvidou de mim, há uns 10 anos atrás, chegando, inclusive, a passar pelo prédio do Simpro comigo, de madrugada (!!!) e a falar com o vigia, que - má sorte, a minha - não sabia de nada sobre o "porãozinho". Não o culpo, mas também não tenho que me desculpar por ter uma vida permeada por histórias improváveis. Ela é assim mesmo! Fazer o quê? E, na verdade, eu sinto muito pelas vidas que vidas não o são... rsrrs...
seus braços ficam bem aqui na sala, no lugar das pernas da cadeira. as visitas vão entrando e vão dizendo: que maneira essa decoração. a cabeça é companhia pro pinguim de geladeira, a cantar qualquer besteira pra acudir meu coração da agonia em que me deixa essa panela de pressão. sua barriga sobre a cama entre a nuca e a cabeceira, há de ser bom (e se a fome já passou, então não ronque, por favor). suas pernas talhadinhas, duas vão para abajour, a a outra pro vaso de flor. e esse peito quase bunda, com um buraco bem no meio, não segura o seu recheio e dificulta meu despacho. ja o couro da cacunda dá um belo dum capacho. mas pra não desperdiçar a calota dianteira, fica sendo uma peneira, já que não vai dar pra tacho. furadeira tá ligada e por consideração, coração, bago, miolo e as outras miudezas vão pro prato de ração da mais bela das rafeiras de sua autoestimação.
desdobrando-me para dobrar menos feio e ainda não sei como vai ficar. importante é minimizar o volume e fazer caber.
no fim, é certo algum espancamento -cresceu demais, sem precisar e sem querer- mas violência ia chegar, de qualquer jeito.
e depois de conseguir fechar, se a coisa der de estourar, aí é que vamos ver no que é que (não) vai dar.
largar no ar, sem deixar cair. anular tempo, distância e o conteúdo dos anos vividos. ter controle. não ser infinitamente ridículo. esquecer, com a memória a latejar. desaprender. encontrar nos livros, encontrar nos discos, encontrar-se. manter firme a cara que já não se tem. evitar esperança. recuperar a pele, desenvelhecer, desendurecer, apagar. não se envolver. não se viciar. acreditar nos próprios pretextos. passar despercebido. não arder. deixar de lado o que está dentro. tratar a dor longe do corpo. voltar atrás. não se comprometer. confiar que o mundo encontrará maneira de rodar sob os pés, até parar no lugar correto. sair ileso. ser consolado por compreensão e desprendimento. estar certo. caminhar para dias cada vez melhores, ignorando os fins que há pelo meio. curar-se. saber. saber. saber. saber. saber de tudo e mesmo assim, não temer.
começando a trilha que vai de trás da casa até o poço maior, encontro meu pai vindo descalço, sem camisa, andando muito rápido e apertando, com a mão esquerda, um dedo a sangrar na mão direita. "vai lá que ele pegou uma tilápia de mais de dois quilos" ele me diz, satisfeito, sem parar para falar e ignorando o seu corte. preocupo e despreocupo. está tudo bem. continuo descendo e lá de baixo você já vem, à frente de um menino grande e duas pititinhas, com seu peixe na mão e a melhor cara do mundo.
como é que uma cena sonhada cola tão forte na retina? não sei.
essa noite, amor batido veio sequencial, em fotos batidas em luz natural. das minhas mãos para meu umbigo, erguia-se um mundo de cenas suas. pra baixo, em mim, caíam as que pediam um olhar mais profundo. eu apanhava e apanhava tanto. era sempre a sua cara - numa clareza que eu nunca mais vi a olhos nus - que o calor fazia colar sob os braços, pescoço, dobrinhas. a intenção da espera era o banho secar completamente e, de repente, debaixo das cobertas, descobri os retratos ao lado de uma "love" pretinha, das mais antigas. foi muito tempo ali dentro e fora, eu não aparecia em nenhuma. estava doida para me ver enquadrada, junto, mas eu sabia que não tinha jeito. então, pra me vestir, já seca de te ver e decorada por todos os cantos, puxei uma peça no meio de tantas me veio justo uma "foto-camisa", com sua fucinha na estampa.
o seu negócio é esse, agora eu entendi. desde que aparece já começa a trilhar o que eu vou chorar depois. foi assim, antes. onde é que eu estava com a cabeça? não que eu não mereça, eu fiz por onde, eu sei. mas eu bem que me avisei. ia dar nisso, não tinha outra chance e eu quis, mesmo assim. mesmo sem ter nada pra querer, nenhum prêmio pra ganhar, nem carinho para acalmar, você não sabe dar nada além desse mar de ondas, que você me teima em me tirar. vá se danar é o que devia dizer, mas qualquer dano que te dane não me dá nada, só me dói. neste caso, fica bem, nada, ai, some, voa, volta, sai, que dos dois, não sou quem vai trilhar desmerecer.
Vá lá, que depois que se morre uma vez, nunca mais te conseguem matar.
quando estou longe de você
as quatro paredes são brancas
o teto é branco, o assoalho branco
os móveis brancos, brancos objetos
livros brancos (e as páginas brancas dos livros)
esta folha é branca
branca a tinta com que escrevo nela
estas palavras brancas
quando estou longe de você
e não há ruídos
todos os motores adormecidos
e o silêncio é branco
quando estou longe de você
e o oposto do branco é o branco"
eu preciso cortar as unhas, dos meus pés e dos seus. e encontrar aquilo que já contei que perdi na bagunça desta casa, mas não pela casa ou pelo lar -wherever- por mim mesma, porque era meu antes e não entrou no contrato. preciso decidir o que fazer com as bolhas. amanhã já é! eu tenho que correr. se procurar nos cantos, vou sempre encontrar mais e mais do que, muito tempo depois, consegui desfiar por aí. eu te lembro mais do que me. e seus (des)ritmos, no fim das contas, ajudam, senão a ir mais rápido, pelo menos a manter quente. e tem ventado pra cacete, juro, minha sinusite quase não aguenta. mas é tão bom... e quero tão bem quando me é tão bom... deus! as unhas são pra já. as minhas e as suas, a arranhar, por descuido, outros pés.
"...You're going to reap just what you sow
You're going to reap just what you sow
You're going to reap just what you sow
You're going to reap just what you sow."
pra ver uma caboclada dentro de casa, tomar pinga no cuité, rebatida com bambá. te chamar para andar na pracinha, bagunçar coreto, violar boteco até às tantas. até as todas cantar e beber e dormir só no intervalo das bandas ou durante a procissão. emendar viagens, parar na estrada só para olhar, chamar os seus pra farrear e esquecer o resto. ajuntar a familhagem, reconhecer, conhecer, ouvir história e mentira, aprender todos os hinos. te chamar pra roda, jogar sinuca, acender fogão, olhar menino, espreguiçar, andar descalço na terra ou no vermelhão. ficar fresco na sala das plantas, comer pão de queijo e biscoito frito. te chamar para dormir, quando já estiver dormindo - torto e satisfeito - num sofá com outros cinco na mesma situação.
eu estou com você e sua beleza atravessadas na minha barriga. numa situação de acidente e socorro, deveriam nos levar imobilizadas para o hospital mais próximo, com o máximo de cuidado, sem nos desatravessar. essa separação é coisa a se fazer com muito tino, dizem. mas eu não posso concordar. embora eu ache tudo muito bonito quando olho para baixo e vejo você ali, linda, me machucando sem saber, entendo que quem está no lugar errado sou eu e sinto uma pressa horrorosa de te tirar dali, arrancando vísceras e tudo, antes que você perceba o que se passa e comece a gritar, com razão. eu peço desculpas, de coração (e não, porquê não foi por mal, da parte de ninguém) e para que você não saiba, eu estou arrependida também. vou prestar mais atenção, para esse sem-querer - tão cheio de intenção - nunca mais acontecer.
nas trincas do cérebro, sou uma cidade encharcada. ruas, rios, melhor, ruas-rios, como veneza. além disso, chove e cá estás, sem cuidado, a passeio. sopras-me qualquer coisa nos ouvidos e esses ventos separam-me a cabeça ao meio, mas num talho sagital. à esquerda, o espírito fica a desejar, de longe, o que delira o corpo, do lado direito. um inteiro com saudades de si mesmo. a ventania continua a espalhar palavras, enchendo os pulmões que inflam mais que desinflam. o tronco, então, é quase todo e o que sentem os seios na tua presença. engulo-me, que já não posso estar cá fora, no frio. toda dentro, posso ver tudo, sem ver. sinto uma luz querendo forte se acender. e passando a porta comprimida do estômago, há uma festa gigantesca! era surpresa, eu não sabia e nem era pra eu saber. borboletas há, mais pessoas, músicas, danças e um lindíssimo dia de sol, neste pátio descoberto. ao fundo do ventre, um portão velho e pesado de madeira maciça começa a se mover, lentamente. és tu novamente, encerrando a volta, vindo de mim e ao meu encontro. traz contigo meus pés, tornozelos, canelas, joelhos e coxas amarrados à cintura. e basta que eu veja que já me vês, para desaparecer o peso da entrada. eu então, escancarada, trago-te pra dentro, de uma vez, num beijo por onde deslizas até os veios do meu pescoço, escorrendo-me pelos ombros, braços, antebraços, punhos, mãos, dedos, pontas dos dedos e livre, finalmente, para sempre que quiseres, voltares ao teu lugar.
quando entrei pelo portãozinho de ferro, já sabia que ia finalmente te encontrar. era um tempo seco, o jardim estava murcho e a terra vermelha invadia a cerâmica antiga do alpendre, subia pelas pilastras e fazia mãos e pés pequeninos nas paredes. para lá do muro baixo, através dos buracos num padrão de ampulhetas, viam-se passando as cabeças das crianças brincando no passeio, meus primos tiago e talita, ainda muito novinhos. fico algum tempo parada, só olhando, depois vou te procurar. dou uma espiada pela porta, mas decido dar a volta à casa. atrás dela descubro um quintal grande, com pés de mexerica e outras frutas, uma gangorra, um balanço de pneu e bem lá no fundo, um quartinho isolado e ainda sem o reboco. lá, no chão de uma terra escura batida, encontro uma cova rasa, arredondada e muito lisa, com um travesseiro e um cobertor pousados dentro. além disso, no cubículo, apenas uma carteira escolar dessas antigas e emendadas, sobre a qual descansa um caderno aberto e já todo escrito, o seu livro. ouço sua voz conversando com as crianças lá fora e vou ao seu encontro. no caminho, essa história se perde e eu me perco numa outra, com um pé de manga, muitos primos e recordações da roça do meu avô. e apesar de estar ainda ali, vendo vocês coadjuvando, vou fazer e pensar outras coisas, que infelizmente não grudam bem na memória. algumas cenas desconexas depois, não sei como, vou parar de novo no quartinho, com uma bacia cheia de outras tralhas nas mãos, sentindo alegria imensa. pouco depois, entra você, de repente e me apanha derramando, delicadamente, uma jarra de leite sobre o seu manuscrito.
as ruas escorregam. há uma água rasíssima correndo pelos passeios e pelo asfalto. não há carros. as poucas pessoas vestidas caem, se encharcam e livram-se das roupas. o chão racha, rachadura mole de sabão. o cimento revela um rajado de branco e laranja. as bolhas voam. vem um cão enorme e peludo correndo, que deslizando, sem controle, me tromba forte nas pernas. pés para o céu, as nuvens espumadas num vôo lento e refrescante, vai ser um tombo daqueles. seria. a expectativa é de pura alegria, mas eu acordo no ar.
um dia desses eu sonhei que nos salvava de um furacão. você era criança. a gente estava numa rua descida que dava no mar e deu pra ver direitinho qdo ele começou lá longe e veio rápido em nossa direção. eu saí te puxando pelo braço rua abaixo, até achar uma porta aberta para entrarmos. era a casa de um casal gay de meia idade, supersimpático. eu fiquei vendo o furacão passar pela janela e vc ficou interagindo com as pessoas. quando eu ia falar pra vc não incomoda-los, vc já estava deitada vendo tv com as pernas em cima das pernas de um dos moços, sossegadíssima. fui agradecer e pedir desculpas pela invasão e outro moço disse "tudo bem, você também é cristã, não é?". fiquei sem saber o que responder, mas vc fez que sim com a cabeça, por mim. o furacão foi perdendo a força e no fim caiu do céu um objeto enorme de metal que parecia um boné, daqueles com uma hélice em cima.
"(...) Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida (...)"
você não estava lá quando o dia surgiu, desci a pé pela rua sem te procurar. eu vivo nesta beleza de lugar, mas quem me dera poder ser duas. o sol saiu aqui, mas só me coloriu. atravessei minha ponte, passei sobre o rio que eu amo e aprendi a respeitar, na volta ja sentia menos frio. cheguei em casa como se fosse na sua, gelosia não me deixava espreitar. adivinho você com ela, porquê é isso que eu preciso enxergar, daqui de longe pra não ter que me afogar. eu não estava mais quando você me viu, foi só um rastro de cheiro meu sobre este mar. quem sabe até foi deus quem decidiu que era hora de pararmos de brincar? sonhei a tarde como sonho a madrugada, estirada no chão da sala de estar. meu tapete voou e eu fiquei no ar, até que me lembrei de acordar e é hoje que eu desaprendo a flutuar.
ali estão nossos ossos, duas caveiras formando uma terceira. ali está a continuação na forma mais absoluta. seu queixo sobre o meu. os dois sexos em um, à sorte. sombra do passado projetada no futuro. à frente, soma sob divisão. as curvas e as arestas do corpo, os acidentes da criação. os enganos, os exageros, as miopias. resultado de toda a educação. início e fim em potencial, se quiser acontecer.
estou no deserto sozinha, morrendo de sede e de medo. para onde quer que eu olhe não vejo nada além de nada.
como se não bastasse, vou rolando pelo chão, feliz da vida, um diamante gigantesco que eu acabei de encontrar e não consigo carregar.
aqui jaz, todos os dias, uma pessoa com amor dentro. um não invisível impede que tudo aconteça. o tempo passou assim, a vida fez-se. dentro de mim jaz teu desejo, desfeito em palavras incompreensíveis. não te ouço. nunca te ouvi. nunca quis entender com os ouvidos o que com o corpo eu preferia inventar. não tive um lar que me coubesse, nem uma escola em que aprendesse a ser mais do que eu poderia ser. e aqui jaz a escrita do que eu não soube escrever, junto com a voz que esganissa quando não se pode guardar e canta, assim mesmo, feia como a minha cara, como o meu corpo que já não consegue um ângulo aprazível. eu sou este monte. eu sou este enorme emaranhado de entraves e viéses, sem pai nem mãe. distante, fiz-me mais nada do que deveria e mole, não consigo reverte-me a outra altura do caminho. bacante de nascença, eu sigo guiada pelo teu cheiro, pela lembrança do teu gosto alcoólico e dos risos que eram de mim para mim mesma e não para ti. não te enganes, eu não posso mais que iludir. minhas pernas não são mais torno de enlace, perderam o tônus, estão bambas e só seguem ainda porque estão hipnotizadas, sem saber. amanhã é a única das fracas palavras que me movem. é para lá que eu vou insistente, insone e absurda, morrendo deste encontro que não vai acontecer.
no meu sonho, é um lugar de colunas brancas, com alguns espaços meio alaranjados, algumas texturas no chão e nas poucas paredes, redes e samambaias penduradas, teto de cristal sobre as bandeirinhas de são joão, uma escada de três degraus de arquibancada acompanhando a curva da varanda, que adentra uma lagoa transparente com musguinhos verdes no fundo. casa de deuses, com vento e com sol.
no desejo, é um lugar quentinho ou fresquinho conforme, algum vermelho, pastéis, boa cama, bom sofá, bons ares, cadeiras na cozinha cheia, poucas chaves, pouco precisar, poucas bugigangas, luz, café e paz.
na tristeza, é atrás da porta do meio da casa da infância - aquela que tinha uma maçaneta de apertar com o polegar - no canto, junto com as vassouras ou debaixo da cama, abraçada na cachorra que salvou a minha vida.
na saudade, é uma mesa de duzentas pessoas coloridas, com as bocas grandes e os olhos pequenos e a cantoria e a comida e as crianças e a cachaça e o amor.
no amor, são lençóis mágicos -que nos permitem respirar debaixo d'águas- cobrindo as nossas caras rindo dos anos, sem culpa, engraçados e fundamentais, nos dias quentes de desengano.
na verdade, eu não sei, mas deve ser um casa completíssima, onde eu morro diariamente.
eu sei bem dos lugares por onde a minha alma passeia
mas até hoje não saquei onde ela mora
(apresentação de ranchos folclóricos - porto, mai/11)
eu vi cachorro. eu vi neném. eu vi eu mesma virar outra pessoa. eu vi vô e vó. eu vi um homem do avesso. eu vi chá. eu vi água. eu vi pinga. eu vi vinho. eu vi nascer um cabritinho. eu vi passar trem. eu vi avião. eu vi carroça. eu vi televisão. eu vi computador. eu vi miragem. eu vi sem ver, também. eu vi cair gelo. eu vi nevar. eu vi peixe. eu vi boi. eu vi fotografia. eu vi muita animação. eu vi terreiro. eu vi tambor. eu vi meus tios e seus meninos. eu vi o xisto tocando violão. eu vi meu pai, minha mãe e minhas irmãs. eu vi que ia ficando quase tudo para amanhã. eu vi que não tinha jeito. eu vi que era eu ali, o tempo inteiro. eu vi pouco dinheiro. eu vi escondida. eu vi meio sem querer.
é dia de ouvir hinos. e "eu simplesmente não consigo parar."
"Penso que tu mesmo cresces
Quando te penso. E digo sem cerimônias
Que vives porque te penso.
Se acaso não te pensasse
Que fogo se avivaria não havendo lenha?
E se não houvesse boca
Por que o trigo cresceria?
Penso que o coração
Tem alimento na Idéia.
Teu alimento é uma serva
Que bem te serve à mão cheia.
Se tu dormes ela escreve
Acordes que te nomeiam.
Abre teus olhos, meu Deus,
Come de mim a tua fome.
o amor que eu sinto me sai pelos peitos. alimento um homem, uma mulher, um cão e uma criança, que entre si disputam-me, como filhotes. é primavera, percebo cheirando um vento de minúsculos grãos amarelos perfumados. vejo o céu num azul supersaturado, sem nenhuma nuvem. meu corpo está solto sobre uma montanha de algodão limpíssimo e afunda-se na brincadeira. sinto cócegas e rio muito alto, dou gargalhadas até chorar. penso que este é o dia mais feliz da minha vida.
a casa não caiu, não inundou, não pegou fogo. o meu lar não se desfez. não houve abandono. um pilar muito bruto sustentava tudo, aguentando firme as machadadas. quem foi que misturou tão denso este cimento? quem foi que trançou a malha de ferro inabalável desse núcleo? às vezes eu rezava por um terremoto, um tsunami, um furacão. às vezes eu cavava uma caverna e hibernava. às vezes eu fazia as malas de mentira, triste por querer tanto ir e triste por não estar indo de verdade, depois eu aceitava uma companhia, um cantoria, uma mão de balas, uma alegria, viesse de onde viesse, porque ser assim não era escolha, era condição.
eu sinto a falta de tudo o que eu tenho. do que eu não tenho, sinto a presença.
não pode ser, mas dorme comigo perfeito, sem roubar cobertas. respira junto, sincronizadíssimo, as caras dentro, quase, uma da outra. se meus nãos têm sido mais reais que os meus sins, então, que realidade que eu devo defender? os sonhos noturnos têm-se espaçado cada vez mais, estão me deixando (sozinha?) e depois, talvez, eu não saiba o que fazer com mais essa lacuna. pouco me importa. foi uma impossibilidade que me trouxe a paz e o movimento de que precisava, mas não enxergava. senti-me bonita para ninguém. ri mais. quis mais. pensei. e não posso. ainda não. o ainda é um tempo sem medida, criancinha, que não aprendeu a se vestir sozinho. é um tempo meio perdido, carente de autoconhecimento, impossibilidade pura. o enquanto, ao contrário, é um presente pronto, vindo do futuro ou do passado ou de lugar nenhum, mas presente. e enquanto isso, eu vivo aqui, mezzo desperta, mezzo bêbada, cheirando o ar, uma mão acarinhando a outra, aqui e aí, habitando e habitada, preenchida de vontade e negação, absolutamente acompanhada e tranquila de que tudo se dissolve vida afora, até o que não pode ser.
parece que as musicas dos outros vão me deixando com mais vontade de ouvir você me cantar. parece que eu lá vou ficando de um jeito cada vez mais difícil de sarar. e o pior é que eu estou gostando, ninando a febre, cobrindo direitinho pra ela não baixar. uma hora acabo sucumbindo desse incômodo viciante, dessa impossibilidade sem cura descoberta, que não importa a mais ninguém. enquanto isso, este instante e este copo secam, cigarro queima e sua voz sem beijo me chama, no meu sonho, de seu bem.
nadaconteceu. só dividindo a banheira com a garrafa de vinho, bebadarrependida, já de antemão. e desculpa. choradeira de boca aberta. "todo o sentimento" uma vez atrás da outra, igual adolescente. vou morrendo desse frio que, de alguma maneira, eu escolhi. parece até que o tempo voltou e eu ainda não aprendi nada nessa vida.
não sei se estou a subir ou a descer, sozinha, dentro de um elevador semicircular todo metálico e hermeticamente perfeito. a viagem demora algum tempo. eu me distraio vendo as formas estranhas que crio nas paredes ao me movimentar, ao som da voz do milton nascimento em uma música muita calma que não reconheço. suavemente, o elevador pára e abre-se uma porta onde não havia nenhuma abertura. saio em uma espécie de laboratório sem janelas, onde há vários animais soltos com aspecto saudável, em cujas peles e carnes há partes transparentes que deixam ver os órgãos. brinco um pouco com uma cabra branca muito dócil e vou explorar o ambiente. não há ninguém além de mim e dos bichos. no fundo do cômodo há uma pequena banca de cozinha, com eletrodomésticos, alguns copos, pratos, talheres, um balcão e uma cadeira. abro um microondas e encontro um pacote de pipocas já estouradas e frias. resolvo comê-las, mas antes quero reaquecê-las um pouco. aperto um botão para ligar o aparelho e, em vez do barulho comum de microondas trabalhando, ouço a música de ano novo da rede globo.
essa noite faço uma visita a um mundo que se transformou enquanto não estava perto. a rua por onde passo já fora um rio, sei, assim como outras duas abaixo, águas contíguas daquelas que posso ver, paralelas e finas, mais adiante. há uma casa das paredes brancas e grossas, onde não entro por não me trazer nenhuma recordação, mas para além do pátio em mosaico, me chama o quarto dos fundos. o meu quarto, a minha cama, a minha cômoda e aquele frio inesquecível, que eu achava que era meu, mas vejo agora que não. numa das gavetas de cima, dentro uma caixinha de madeira, entre outras bugigangas, reencontro um anel de estimação, perdido há muito, inclusive na memória. meio o reconheço e meio o invento ali na hora. está bonito, mais escuro que antes, acho, mas ainda cabe perfeitinho no meu anelar direito e, por isso, ganha um beijo.
um grito condensado, quase palpável, um grito tão longo quanto a minha viagem, um grito feito com todos os meus silêncios, dos mais profundos aos presos na boca, um grito em linha reta, furando chão, atravessando as roupas no guarda-roupa e o pedaço de mundo que há daqui até aí, onde o podes ouvir, engulo.
toda vida é inventada.as pessoas me fazem bem. a astróloga tinha razão. eu sou alguém de muita sorte, apesar de ser quem sou. meu ascendente é escorpião, a lua é libra. a liberdade é uma coisa da qual quase chego perto, algumas vezes, como todos. há pouco ou nenhum engodo que me fazem engolir, mas essa esquisitice tem um preço alto. eu tenho um olho de cada cor. para mim, o amor é redenção de todos os pecados, mas não consigo praticar religião. sou indoutrinável e infiel, mas sei amar, penso que como muito poucos, divinamente. meu corpo não sou eu. meu nome não sou eu. meu rosto não sou eu. o mundo muda muito ao meu redor, mas eu mudo pouco e devagar. eu tento estar alerta, prevendo o terremoto ou a tempestade e apesar de saber que não adianta, não estou preparada para aceitar. aliás, não estou preparada para nada e vivo entre a alegria e a escuridão, todos os dias. e à noite deus me cura, sem querer, pela televisão.
O barco
Meu coração não aguenta
Tanta tormenta, alegria
Meu coração não contenta
O dia, o marco, meu coração
O porto, não
Navegar é preciso
Viver não é preciso
O barco
Noite no teu, tão bonito
Sorriso solto perdido
Horizonte, madrugada
O riso, o arco da madrugada
O porto nada
Navegar é preciso
Viver não é preciso
O barco
O automóvel brilhante
O trilho solto, o barulho
Do meu dente em tua veia
O sangue, o charco, barulho lento
O porto, silêncio
Navegar é preciso
Viver não é preciso.
(os argonautas, do caetano) posted by Amana Rodrigues
12:00 AM
então deixaste, com ternura, de falar. assim, acredito, impediste sabiamente umas palavras bestas de incomodar o amor que é vivo e não precisa ansiar. abandonaste-me dos conselhos e dos pedidos deles, todos tolos, querendo parecer os mesmos. agora vives a vida que é sua e eu não sei. e o tempo que é nosso não passa. por baixo da ponte há sempre água, como dentro de nós. e sabemos (quem sabe?), um dia brindaremos novamente, como irmãos da vida e da morte.
casa da conselheiro, para variar.
por baixo da porta chega uma carta com meu nome escrito em triângulos. abro-a e vejo mais signos estranhos, meio hieroglíficos, de onde consigo traduzir uma mensagem dizendo que terei que perder uma parte do meu corpo. sinto medo, mas como não compreendo bem o que isso quer dizer, vou perguntar ao meu pai. ele me diz que é uma coisa do governo, que eu tenho que lhes responder dizendo que parte que eu prefiro perder. "mas sou eu que escolho?" berro, histérica, daqui para lá.
e escolho acordar.
era um cômodo quase quadrado, revestido de cerâmica lisa, cor de caramelo. não se podia adivinhar o resto da casa, mas os volumes cúbicos coloridos nos cantos das paredes - como peças de lego gigantes - sugeriam uma casa em reformas. perto de um desses cantos, do teto pendia um chuveiro elétrico e mais nada. era um cômodo grande e vazio demais para o banho que você insistia em tomar e a sensação era de que havia sempre alguém a nos observar. lá fora, por uma janela que era apenas um espaço sem de tijolos, sem vidro nem esquadrias, via-se o dia virar noite com rapidez. cedemos, eu e a luz, mas não me sentia muito bem, apesar da vontade que tinha tão forte de matar essas saudades. durante algum tempo ainda estive ali, entregue, entre paixão e frio, no assoalho molhado, onde a água que escorria gelava rápido a pele e anestesiava os dedos dos pés, mas não pude por muito tempo. e, já de pé, diante do seu aborrecimento quase agressivo, pus-me triste e calmamente a explicar-lhe que aquilo não podia ser bom.
“isso é o rio, meu filho, que terás de atravessar” disseste-me diante daquela imensidão de água, que agora sei ser um lago(, pai. e sou). diante daquele volume líquido com vida bem sólida dentro e nem tanto na superfície, viajei em pensamento tantas vezes, do outro lado, a buscar-te e os passeios e os cavalos, a cantoria e o fogo. enganaste-me. enganaste-te. não era sempre a correr. não bastava o querer para estamos juntos. não era sem fim. e hoje, deixo-te aqui, como deixaste-me lá, neste charco que a chuva embebeda ainda mais. mal a terra pode com a pá. mal os homens podem contigo, a endireitar-te no buraco. a água é tanta. são tantas águas as que não podes ver. sua face sem perguntas pergunta-me e sem enganos, olhos fixos na margem, respondo: “isso é o rio, meu pai, boa viagem.”
14°C
Parcialmente nublado
Vento: S a 19 km/h
Humidade: 77%
caboclo, toma tento, que seu intento ainda dá pro torto. caboclo, pega nela com as mãos, com os pés, com as pernas, tira a moça da janela da desilusão. pra quê que foram inventar o avião? e essa lonjura? caboclo, jura que não some mais e não. sai dessa toada torta. sai por essa porta e não pára mais até chegar no primeiro andar daquele edifício verde de esquina. caboclo, pega sua menina e dá pra ela o que é dela.
"meu coração tá batendo como quem diz: -não tem jeito."
Amor, precisa uma tarde
tarde promete descanso
que nada, tudo descamba sem querer
remorsos rondam a cama
solidão, psicodrama
conversa pra boi dormir
é só eu que tô sem você
amor, lá se foi a tarde
nas brechas da persiana
início de fim de semana
fobia e lazer
morbidance, unha roída,
poesia dolorida
a tarde pede a noite
pra escurecer
a noite já vem com pizza
com sirene de polícia
essa casa faz qualquer um enlouquecer
paredes pedem relento
agonias pedem vento
pular do primeiro andar
não vai resolver
é por isso que eu danço tanto
meu samba pede avenidas
as aparências tem mais que aparecer
alegorias me enganem
meus sapatos que se danem
coversa pra boi dormir
tudo é só porque
eu tô sem voce
estou numa ilha que fica cada vez menor, banhada por dois oceanos, dois quais desconheço a profundidade e a extensão.
a qualquer momento, forçosamente, tenho que me lançar para um dos lados, sem terra firme para onde voltar.
ou me afogo ou encontro atlântida.
mãe é um desejo antes de tudo. mãe é um desejo de ganhar mais vida, dispondo dela pré, pós ou sem parto. mãe é um bem feito em 10 segundos ou em 50 anos. mãe são inconfundíveis olhos de mãe, um doce guardado longe da boca. mãe acontece de repente, com qualquer um que tenha mãe dentro. mãe não tem gênero e independe de espécie, de qualquer espécie. mãe não é porque todas são, mas tudo o que é mãe, é - sozinho e deus, como todo mundo. mãe é um passo certo, para perto ou para nunca. mãe não é eterno. mãe só existe por querer-se muito. mãe, sem querer nunca há. mãe é um evento raríssimo, apesar da palavra. mãe há tanto, tanto, tanto sem dizer. mãe não se chama. mãe pode ser qualquer coisa que vá e seja. mãe não é para todos, quem dera a todos. mãe é um elogio da evolução. mãe não é o princípio da vida, é o sentido, em qualquer sentido. mãe desaparece de repente. mãe não quer porque concluiu que assim era bom. mãe não é nome e nem título. mãe não tem nada a ver com planejamento, nascimento ou coabitação. mãe não é quem cria, ausência cria também, mãe é muito mais. mãe não tem culpa se não for. mãe-que-não-é, não é e nem tem que ter que ser. mãe é irrecusável para quem é ou tem. mãe é uma leveza dentro de uma brutalidade. mãe é um ser livre como ninguém.
a palavra dentro é bela, mas eu não estou dentro dela. como posso caber? amana é lindo, é meu nome, mas não sou eu. as palavras encantaram os homens, para quem o silêncio se tornou veneno. nenhuma alma suportaria a extinção total das palavras. mas o corpo aguentaria, firme, fora de controle, sonhando cores e formas e vidas sem lhes dar nomes. a humanidade teria que, lentamente, redespertar seu ânima, redescobrir um mundo já construído, mas sem nenhum valor identificado pelo senso comum. o primeiro sentimento teria que ser sentido de novo e seria, por todos, ao mesmo tempo. e a primeira comunicação surgiria, mas no silêncio. desenvolveríamos a visão, o tato se tornaria mais mais sensível e cada vez mais, através dos milênios, bilênios... até ficarmos cegos e anestesiados.
9:44 e eu estou na cama, de segunda feira. não tem fim. há quatro anos, não há conceito que se sustente, estou me desintegrando. resumindo: um amontoado de definições, que podem ser quaisquer umas, para serem desfeitas. e são. verdade é essa, que não é, nunca. foda.
desconstruídas as bases, lá se vão as regras para o escambau e a vida é boa porque é, de qualquer jeito. casa vira acampamento. amor, sem compromisso, acontece em horário comercial, sobre os móveis, no quintal. aparência quer, cada vez menos, ver-se na rua.
De repente, estou aqui duvidando do que eu sinto, desacreditando. Pode ser que seja mesmo necessário secar um pouco, para enxergar no enxuto o que é isso e aquilo outro, para perceber o que há de ser regado e o que não. Hoje é aniversário do pai e estou feliz há três dias por causa do que hoje é. Eu sinto um amor violento, que eu quero leve, mas não consigo.
Aí dói, pai, bate mais não. Aí, eu não te chamo de senhor, embora seja o meu senhor e não te chamo de amigo, embora seja o meu amigo. Eu te chamo de Pai, como se este fosse seu nome desde que nasceu. Você podia ter fugido e ficou, duvidando dos sentimentos, talvez, enxugando-os para vê-los bem, talvez. E o meu medo impotente que podia, se fizesse o favor, ter-se ido, fincou pé há anos, de não te querer deixar ir a lado nenhum. Bobagem. Ele estaria, mesmo que se fosse, assim como você.
Eu ouvi agorinha a voz do meu pai rindo pra mim, contando dos cachorros, que tirou o filhote único de uma para dar a outra que tinha já tantos, só pra ver.
Violência vai chegar e não há nada que eu possa fazer.
eles continuam pelados.
eles todos sonham.
eles esfolam as pontas pelo menos uma vez.
eles dormem encolhidos às vezes, ou sempre.
eles amam suas mães, mesmo que não.
eles têm medo de morrer.
eles se desconsertam.
eles cantam no banho.
eles querem cachorro.
eles mamam.
eles matam.
eles mordem.
eles gostam de crocante.
eles se desconectam.
eles rezam, até sem querer.
eles vão, sem saber para onde.
eles se vão.
eles são todos um, mas pra cada um, um não. posted by Amana Rodrigues
4:36 AM
eu sou uma mulher apaixonada por um homem e tudo o que isso traz. eu sou uma mulher ouvindo músicas instrumentais o dia todo. nenhuma palavra. nenhum cabimento. nenhum espaço a ser preenchido, a não ser pelos sons do que você já faz aqui, dentro.
eu tinha quase oito anos quando ela chegou. nunca vou esquecer. era de tarde, outra tarde emburrada e deslocada naquela realidade nova, irremediável e incompreensível. foi um riso muito maior do que eu sabia que sabia dar, só que para dentro. respirei aliviada e feliz pelo retorno de alguma paz e depositei ali uma esperança maior do que todo o sentido da palavra, que eu ainda nem terminei de entender. dei o nome de catuxa, que era o nome da paquita recém chegada, realizadora do sonho obrigatório de toda menina da época: ser bonita, gostosa, oxigenada, ditar moda e dançar com a xuxa na televisão, tudo o que não tinha absolutamente nada a ver com a minha realidade. eu não tinha nada disso e nem próximo do que tinham as meninas sonhadoras por obrigação ou gosto da época, mas eu tinha um cão, aliás, uma cadelinha bacê só minha. minha companhia, minha salvação. minha, toda minha. a catuxa foi um presente pensado, uma compensação, um prêmio de consolação que de fato me consolou como ninguém mais no mundo seria capaz. tudo o que eu queria era estar com ela e em paz. durante muito tempo, ela ainda filhote, eu punha o colchão fino debaixo da cama e lá nós dormíamos tardes inteiras. falávamos. contava meu dia e todas as histórias inventadas, ela simplesmente acreditava. eu achava graça dela perdendo os dentinhos de leite. ela me mordia, eu revidava. ela estava ali para mim e eu era imensamente grata. não havia nada, nem ninguém no mundo mais importante. ela era a minha família, a minha saudade, a minha compaixão, a minha reconexão, a minha humanidade. eu não precisava que ninguém entendesse, eu não precisava que ninguém soubesse o que nem eu mesma sabia, assim, com palavras. eu era feliz por sentir confiança, lealdade, afeto e incondição. eu transferi para ela, por merecimento e por devoção, todo o amor que eu tinha no peito, recolhido pela inadaptação.
não importa para que lado, o amor tem mesmo que vazar. amor que não vaza é veneno, dos piores. e é por isso que não tenho dúvidas ao contar que o que eu sentia era gratidão pela vida salva. a catuxa "salvou" minha vida na sua ignorância e tolerância animal, mas no meu entendimento, que não tinha oito anos e depois fez 9, 12, 13, 16 com ela por perto, isso não tinha a menor importância, pois nada careceu, nunca, de raciocínio ou explicação. era uma coisa tão minha e, para mim, tão óbvia, que eu jamais precisaria explicar ou defender. e ninguém jamais mudaria o que quer que fosse, pois não era do interesse de ninguém, não tinha serventia para ninguém, ninguém queria. eu podia estar tranquila e estava. sobretudo, porque ninguém ousaria tocar nesta parte tão densa de mim que estava ali, vazando, para não me sufocar.