Este blog não pretende absolutamente nada, não tem nenhum compromisso com a verdade, não é um passatempo, nunca foi um diário e nem parte de estudos ou reflexões pessoais, nada disso. Aliás, ele não tem a menor razão de existir, mas existe mesmo assim, como a maioria das coisas.
O jugo, de tempos em tempos, ameaça em voz alta partir, mas não tem forças para rebentar sozinho. Em vez disso, os bois vão se distanciando discretamente, silenciosos, numa lentidão quase indolor.O jugo vai seguindo sonâmbulo, flutuante, sem conceber a falta, sem conceber a presença, sem conceber o depois. O jugo sozinho não pode conceber nada. posted by Amana Rodrigues
11:53 PM
A bagunça na minha casa foi tanta e por tanto tempo que só agora que comecei a arranjar espaço para as coisas e forma de ajeitá-las foi que percebi ter perdido um sentimento importante. Já tinha dado pela falta há algum tempo, mas julgava que pudesse estar sob uma montanha de roupas ou coisa assim e que depois da faxina, acabaria por ressurgir naturalmente de algum lugar óbvio, por onde eu teria passado várias vezes sem o notar, mas ainda não encontrei nada, nenhum sinal dele e nenhum sobressalto. posted by Amana Rodrigues
11:31 PM
Só não te amo mais porque sua flor na lapela é de pano e não brota do peito.
Resta a borboleta que traz no cabelo, mas eu já reparei que é de plástico e não pode voar se quiser.
De que adianta essa flor de pano no peito e a borboleta de plástico no cabelo?
Você acha que eu vou acreditar que essa beleza toda vem de dentro?
Eu só vou te amar inteira quando a flor te romper a pele, a roupa e dar de lamber à borboleta que nela escolher pousar. posted by Amana Rodrigues
3:07 AM
eu dormi e acordei no seu veleiro. foi
de repente, mas era óbvio que seria assim
dentro do seu peito já casamos para a vida toda
e morremos e reencarnamos amor-puro-para-sempre
nossas festas já foram a alegria maior de cada dia
e reinavam a simplicidade, a descoberta, o encantamento
eu velejava com você e seus amigos e os meus e toda noite
era assim
tinha um sol batendo de leve no rosto e um vento bom na nuca
um arrepio, uma encolhida nos ombros, um suspiro de satisfação
e mais o cheiro de sal no ar, o alimento bom, a felicidade e o balanço
apesar do espaço pouco, do tempo curto que ia passar e passou, apesar do cimento que não era mar, velejamos juntos
uma vida inteira antes de nos despedir.
D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R P A R A T R A B A L H A R P A R A D O R M I R INFINITAMENTE. posted by Amana Rodrigues
3:23 PM
Eu lembro muito das suas mãos. Das suas unhas redondinhas, das articulações grossas, da dureza. Eu lembro das suas mãos fazendo pão de queijo, abrindo uma porta, estendidas para pegar alguma coisa, sacudindo depois de molhadas, carregando um neném. Eu lembro da sua voz com raiva, lembro muito, mas também lembro da sua voz com as crianças e com os velhos da nossa família. Lembro da sua voz com medo, da sua voz de susto, da sua respiração mudando ao receber uma notícia ruim pelo telefone. Lembro de você chorando, os dedos rijos entre os cabelos, os olhos para o céu e a falta das respostas. Lembro das palavras. Eu me lembro muito bem de todas as palavras. Lembro de você dormindo e de você acordando, todos os dias, fazendo os barulhos iguais até ir trabalhar. Eu lembro do som dos seus passos, do seu espirro, do seu silêncio. Eu lembro de você muitas vezes calada, sentada num sofá ou em algum outro lugar sozinha, mas quase dava pra ouvir a gritaria da sua cabeça. Eu lembro de você passando de madrugada. Lembro de sentir a sua presença no escuro, de saber que você estava lá antes dos olhos se acostumarem e eu conseguir ver seu vulto insone na penumbra. Lembro de você falando mamãe para a minha vó. Lembro de você solar, com suas roupas bonitas e coloridas, lembro de um monte delas em você. Lembro dos cabelos molhados penteados para trás, do cheiro bom, do batom, da base, do lápis azul. Lembro de você cantando feliz nas festas, você tontinha, sorridente, com os olhinhos fechados, dançando um belisquete. Lembro dos gritos alegres de ô cumpadi ou qualquer coisa assim. Lembro de você cuidando e brincado com os cachorros do seu jeito. Eu lembro da sua alegria, da sua intimidade, da sua natureza, da sua praticidade, sua barriga, seu riso, suas pernas, seus seios, seus dedos, seus anéis, seu pescoço, seu cabelo, seus olhos, sua testa, sua ira, seus pés e sua paz. Lembro de você no seu diário que eu lia apaixonada. Lembro de imaginar você menina e da vontade que eu tinha de te conhecer assim. Lembro de tentar adivinhar seu mundo antes de mim, sua leveza, seus desejos, sua juventude. Lembro de desejar quase desesperadamente e do fundo do coração, que você fosse muito feliz. Eu lembro dos abraços das chegadas, dos abraços das partidas e dos abraços das comemorações. Lembro dos carinhos curto e intensos de ano novo, dos desejos sinceros e de não precisar falar. É pena a pele não ter tanta lembrança quanto os olhos e os ouvidos. Lembro da falta que eu sentia (e ainda sinto e cada dia mais) de estar mais em você, encostada, grudada, dentro. Lembro de você brincando comigo, preparando uma mamadeira pra mim, trinta mil anos atrás.
Algo soa familiar? heheh... Mas é portuga mesmo, credita? Dá pra notar o brazuca forçado na hora do "cáfê".
São as sobrinhas da Geni pegando o zepelin pra fazer a vida aqui ao pé de minha casa:
São Paulo 451
(Belle Chase Hotel)
Naquela praça suja com merda de pombo, patrulhada pelo sexo,
ele chega ás quatro polindo o sapato p’ra vender o seu amplexo.
E os homens passam, notam seu bigode, mas na coxa se extravasam.
Veio sua amiga, a loira José, convidando para o café.
E ao segundo brandy, já José se expande, esboroando seu baton:
“Amanhã não estaremos aqui,
veja se bebe um pouco e sorri e tira esses olhos do chão!
O futuro é lindo: eu já vi!
E o avião vai directo para lá!
Vamos embora dessa aflição!”.
E Manuel morena tomou os seus calmantes por causa dos joanetes.
E disse cansado que estava assustado pois nunca tinha voado:
“E se há um acidente? E se o passaporte?
Será que não sentes o medo da morte?
Me dá um cigarro!
Me dói a cabeça!
P’ra quê tanta pressa? E a depilação?”.
“Amanhã não estaremos aqui,
veja se bebe um pouco e sorri e tira esses olhos do chão!
O futuro é lindo: eu já vi! E o avião vai directo para lá!
Vamos embora dessa aflição!”.
Bem mais animadas frescas e pintadas foram-se embora de vez.
No dia seguinte num canto da praça quem passou podia ver duas prostitutas tão deselegantes acenando p’ra você.
Bom pra caramba, né? Rachei o bico. posted by Amana Rodrigues
6:11 AM
Há meses ela não se depila e fez a sobrancelha pela última vez nem sabe quando. O cabelo está ficando branco, mais ainda do lado direito da cabeça (deve ser o lado que envelhece mais rápido, acho). E mesmo que ela pense nisso, passa várias vezes pelas caixas nas prateleiras que dizem castanho sedução, castanho mogno e marrom elegante, não se interessa por nenhuma e não leva. Faz tempo. A tesoura azul já bastava para dar uma boa aparada na selvageria entre as coxas e quase sobre elas, mas só Deus sabe onde está. Seus joelhos e os cotovelos estão cada vez mais rudes, isso sem falar nas mãos. Até comprou um creme esses dias, mas era para o corpo, descobriu porque ardia-lhe a cara, então comprou outro que era para o rosto, mas só usou uma vez. Um dia desses fez as unhas, só as das mãos, mas agora já não se nota. O frio resseca-lhe a pele dos dedos acima das cutículas, que ela irritada morde, puxa e às vezes sangra. Ontem mesmo estava com um curativo, arrancou um pedaço maior que o necessário e aquilo inflamou. Um desastre. Sua menstruação agora vem e passa como se nada fosse. E nada é, mesmo. Não fossem as dores fortes que ela ainda sente no primeiro dia, viveria como uma mulher que não menstrua. Antes não, era sangria de uma semana inteira, viva, cheia, brilhante. Parece até que deixou de viver aos ciclos. A vida lhe tem sido plana e pra onde quer que olhe não vê fim nem recomeço. É míope, coitada. E cada vez mais. Duas vezes por semana ela se anima a fazer a linha dos olhos, pelo menos, mas de pouco isso adianta por trás dos óculos sem jeito das lentes que já lascaram mais de uma vez . E a tudo isso se soma aquele vasto cabelo de madalena arrependida que ela já carrega há anos, milênios até, desde muito antes de se arrepender. posted by Amana Rodrigues
3:27 AM
Se eu pudesse passava mais um dia inteiro daqueles. Cabeça apoiada na parede, corpo atravessado na cama, sem sapato pra não sujar o lençol, se houvesse. Um travesseiro sem fronha à mão, que beleza, melhorou, tava mesmo doendo o pescoço. Mais umas duas horas assim, antes de virar de lado, rosto sobre a mão direita, travesseiro sem fronha amparando a nuca e depois mudar de novo, talvez sentar. Se eu pudesse, pedia pra tocar seu hinário todo, desde o primeiro hino, que agora é o último, até o último que eu ainda não conheço e o meu cantava várias vezes, até aprender pra sempre, igualzinho tem que ser. Um dia inteiro, se eu pusesse ter, para lavar-me do ranço dos meus meios dias. Se eu tivesse mais um dia, ouvia as suas músicas todas. E depois mais outras músicas, todas as que você tem achado bonitas. Você sempre tem razão nas músicas que canta. E depois conversa. E depois poemas. E depois um silêncio inteiro, até eu ter que voltar. posted by Amana Rodrigues
5:41 AM
Hoje seria mais um dia de folga que eu teria desperdiçado se não tivesse falado com o meu pai no fim da noite. Falar com o meu pai é sempre revigorante, pena que já trabalho daqui algumas horas... O e-mail que recebi com meu trânsito astrológico atual disse que vou ter "problemas de ordem fútil" até o meio de maio. Eu comprei uma base de pão-de-ló, um doce de leite, uma compota de cereja, um chocolate culinário e um vidrinho de chocolate granulado para fazer um bolo e cantar parabéns para o Paulo. O Paulo fez 30 anos na sexta-feira, dia 20. Eu pensei durante algum tempo sobre o equinócio, tentei atribuir algum significado pessoal à chegada da primavera, mas nada aconteceu. A base de pão-de-ló continua na embalagem, escondida sob um monte de roupas em cima da mesa da sala, afastada dos recheios e coberturas, igualmente intocados. Essa casa não tem espaço. Nenhum. Falar com o meu pai foi bom pra caramba. Ele me contou dos cães, dos gatos e dos ratos. Não consegui falar com a minha mãe, nem com a minha vó e não me lembrei de mais nenhum número enquanto estava no telefone público. Não me lembro o que estávamos conversando quando o cartão acabou. Tenho vontade de fazer uns desenhos, desses desenhos só de pauzinhos mesmo, de mim e das minhas irmãs numas cenas legais das quais me lembro, pra postar no blog e falar alguma coisa. Não tenho muitas fotografias com as minhas irmãs. Eu tenho muitas fotografias. Queria ter feito isso dia 30 de novembro do ano passado, mas não tenho tempo e aqui não tem espaço. Aqui não é espaço. Queria ter mais fotografias com as minhas irmãs, mesmo que elas não estivessem aqui comigo, como a maioria das coisas que gosto e que tenho. As fotografias eu não tenho. Ninguém tem. Estou pensando em comprar um violão, o meu está lá longe e não é insubstituível. Muito pouca coisa é insubstituível. Eu lembro que nos meus cadernos de perguntas tinha essa pergunta: "Você se acha insubstituível?", que bobagem... Eu tenho muitas lembranças. Eu tenho muitas bobagens pra lembrar, afff... Eu era a psicopata do aniversário, mas passou. Os aniversários são mesmo dias comuns (!!!) e eu realmente não compreendia isso, juro. Aliás, eu não acreditava em quase nada do que tenho comprovado nos últimos dois anos. Falar com meu pai é bom a qualquer hora e nós nunca temos alguma coisa de que precisamos mesmo falar. A minha mãe fica preocupada. Sempre que falamos ela está preocupada. Eu estou preocupada e mais que isso, não consigo tempo para me ocupar mais do que realmente deveria. Vai passar. Eu não sei tocar violão. Nunca soube. No máximo eu cozinhava qualquer coisa, fazia umas entrevistas para o Portal e dava umas aulas divertidas. Meu pudim era bom, meu macarrão era bom, minhas batatas assadas eram boas e meu picadinho tropical ficou inacreditável, mas eu nunca mais consegui lembrar o que levou, então só fiz uma vez. Eu morria de saudade dos meus alunos, agora já passou. O bolo vai ficar para amanhã, depois do meu trabalho. Eu não tenho ciúmes dos meus amigos, mas aqui eu descobri que já tive. A minha folga está acabando e eu queria ter falado um pouco mais. O cartão acabou, não deu tempo, eu não lembrei, não tive espaço e todas as desculpas possíveis, mas eu não me desculpei. posted by Amana Rodrigues
1:34 AM
casa comigo que é bom para a tosse. casa na árvore é o bom dessa vida. casa-comida-e-roupalavada. caso se encontre espere que eu ache.
caso consiga espere que eu arda. casa na árvore amanhã meio-dia. caso sem falta no fim desta tarde. case preguiça e roupa alargada. casa largada
e roupa comida. caso e comida na casa da árvore. posted by Amana Rodrigues
4:22 PM
Eu tinha acabado de tomar um banho longo e delicioso, em que tive pensamentos e revelações indizíveis, quando me bateram à porta. Comecei a descer por umas escadas encarpetadas, enrolada numa enorme toalha branca. Através dos vitrais coloridos das laterais da porta, vi um vulto bem definido, que tentava olhar para dentro da casa e de repente se afastou. "Me viu"- pensei, e fiquei com medo. Quando estava no último degrau, já estava vestida e já não me parecia comigo mesma, como pude constatar pelo espelhinho do hall. "Estou mais alta", concluí, apesar de estar mesmo totalmente diferente. Abri a porta e lá estava ele, já com ares de quem estava a espera há muito tempo. Era um menino branco, de cabelos pretos e escorridos, trazia uma mala velha marrom, vestia uma camiseta amarela, bermuda, chinelos de dedo e aparentava ter uns seis anos de idade. Assim que me aproximei, estendeu-me a mala que segurava e mostrou-me a palma das mãos, que juntas, formavam uma palavra que eu não conseguia ler. Fiz várias perguntas, mas o menino não respondia, estava bravo comigo. Olhei de novo para as mãos dele e agora estavam cobertas de um barro liso e espesso que não saía, mesmo que se esfregasse com força, pois assim o fiz durante muito tempo, num silêncio aterrador. Entramos numa espécie de transe. Os olhos do menino já estavam molhados da dor dos esfregões, quando enfim puxou para si as mãos e disse - "hoje é o meu aniversário". Com o susto do fim do silêncio voltei ao normal e me senti mal por ter machucado o menino, mas ele riu e completou - "quer ver o que eu faço no dia do meu aniversário?". Pousou as mãos de barro uma sobre a outra, polegar com polegar e enquanto os afastava surgia uma enorme flor laranja enraizada no barro sobre a palavra desconhecida. "Que coisa mais linda!"- brinquei com o menino, ao que respondeu muito satisfeito - "e dá pra comer, quer ver?" - e comeu a flor.