Este é um blog de assuntos gerais e pessoais; revolta explícita; desejos irrepresentáveis; manifestação de sentimentos negativos, cujo nome não deve mais ser escrito ou falado, por motivo de superstição recentemente adquirida; pura euforia; arrepios; tpms; confabulações; autismos e afins...
(...)Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã(...)
Drummond
Quarta-feira, Maio 31, 2006
Sonhos Sonhos São
Negras nuvens
Mordes meu ombro em plena turbulência
Aeromoça nervosa pede calma
Aliso teus seios e toco
Exaltado coração
Então despes a luva para eu ler-te a mão
E não tem linhas tua palma
Sei que é sonho
Incomodado estou, num corpo estranho
Com governantes da América Latina
Notando meu olhar ardente
Em longínqua direção
Julgam todos que avisto alguma salvação
Mas não, é a ti que vejo na colina
Qual esquina dobrei às cegas
E caí no Cairo, ou Lima, ou Calcutá
Que língua é essa em que despejo pragas
E a muralha ecoa
Em Lisboa
Faz algazarra a malta em meu castelo
Pálidos economistas pedem calma
Conduzo tua lisa mão
Por uma escada espiral
E no alto da torre exibo-te o varal
Onde balança ao léu minh'alma
Em Macau, Maputo, Meca, Bogotá
Que sonho é esse de que não se sai
E em que se vai trocando as pernas
E se cai e se levanta noutro sonho
Sei que é sonho
Não porque da varanda atiro pérolas
E a legião de famintos se engalfinha
Não porque voa nosso jato
Roçando catedrais
Mas porque na verdade não me queres mais
Aliás, nunca na vida foste minha
(Chico Buarque)
Ai, um sonho dele... eu queria ter.
Ou mesmo que só em sonho, num sonho dele poder estar.
Ai... Ai...
foi ontem. eu vi a menina loira e descabelada desde a hora que passei na roleta. achei ela bonita. tava dormindo, com a cabeça pendendo para a esquerda e tinha uns lábios grossos e emendados, fazia um beicinho de criança dormindo. era uma criança dormindo. dormindo mesmo. a menina devia ter uns 12 anos e me lembrou a melhor melhor amiga que já tive e agora não tenho mais, que também tem uns traços de negros, embora seja branquela. passei a viagem viajando na menina que se equilibrava no sono embalado pelos saculejos do ônibus. parecia um pouco a minha irmã, também. ela tava engraçada. quase ri. de repente, a menina acordou, me encarou com seus olhos verde-vermelhos-esbugalhados-ainda-sonhando e me perguntou, como se fosse óbvio que eu estaria ali esperando que ela acordasse: "que horas são?" achei divertido, abaixei os olhos e comecei a procurar, silenciosa e atentamente pelo meu celular na selva da minha bolsa, mas antes que eu encontrasse ela comentou: "nossa, que bagunça" e riu. não. sorriu, só, com o olhar ainda um pouco parado no sonho. achei o celular. "são cinco e cinquenta", falei. ela olhou pro tempo, olhou em volta e voltou pra mim: "tenho que ir a um lugar, que pra chegar lá, gasto meia hora andando, mas só tenho que estar lá às sete horas, você acha que eu devo ir?" respondi o que sempre respondo quando a pergunta é muito difícil: "uai..." (um desses bem longos e reticentes) e completei: "vai, ué, cê já tá aqui mesmo..." e na mesma hora pensei que tinha dito uma besteira, afinal de contas, a menina tava ali, mas ali aonde? eu nem sabia de onde ela vinha, nem tinha a menor idéia de onde ela teria que ir e muito menos pra onde ela voltaria, caso não fosse pro tal lugar... não sabia nada daquela criatura que acordou advinhando minha presença e, de repente, me deu a responsabilidade de dar conselho sobre o rumo do seu caminho. Voltei pra menina depois da divagação e fui cumprir a missão recém adquirida: "ok. é muito importante?" não era. "você tem mesmo que ir lá?" não tinha. "pelo menos você quer ir até lá?" e não queria. então respirei aliviada: "não vá!" e a menina riu satisfeitíssima. riu mesmo. com uns setenta dentes, todos branquinhos e alinhadinhos, como os da minha irmã, só que grandes, exatamente como os da ex-melhor-amiga. ficou olhando uns segundos pra frente e quando voltou eu já estava de pé dando o sinal para descer. agradeceu. e antes que o ônibus parasse já estava recostada na cadeira esfregando os olhos e se aninhando, pronta pra voltar a dormir.
Que tens, caralho, que pesar te oprime, que assim te vejo murcho e cabisbaixo
sumido entre essa basta pentelheira, mole, caindo pela perna abaixo?
Nessa postura merencória e triste, para trás tanto vergas o focinho,
que eu cuido vais beijar, lá no traseiro, teu sórdido vizinho!
Que é feito desses tempos gloriosos em que erguias as guelras inflamadas,
na barriga me dando de contínuo, tremendas cabeçadas?
Qual hidra furiosa, o colo alçando, co'a sanguinosa crista açoita os mares,
e sustos derramando por terras e por mares,
aqui e além atira mortais botes, dando o co'a cauda horríveis piparotes,
assim tu, ó caralho, erguendo o teu vermelho cabeçalho,
faminto e arquejante, dando em vão rabanadas pelo espaço,
pedias um cabaço!
Um cabaço! Que era este o único esforço, única empresa digna de teus brios;
porque surradas conas e punhetas, são ilusões, são petas,
só dignas de caralhos doentios.
Quem extinguiu-te assim o entusiasmo? Quem sepultou-te nesse vil marasmo?
Acaso pra teu tormento, indefluxou-te algum esquentamento?
Ou em pífias estéreis te cansaste, ficando reduzido a inútil traste?
Porventura do tempo a destra irada quebrou-te as forças, envergou-te o colo,
e assim deixou-te pálido e pendente, olhando para o solo,
bem como inútil lâmpada apagada entre duas colunas pendurada?
Caralho sem tensão é fruta chocha, sem gosto nem cheirume,
lingüiça com bolor, banana podre, é lampião sem lume
teta que não dá leite, balão sem gás, candeia sem azeite.
Porém não é tempo ainda de esmorecer,
pois que teu mal ainda pode alívio ter.
Sus, ó caralho meu, não desanimes, que ainda novos combates e vitórias
e mil brilhantes glórias a ti reserva o fornicante Marte,
que tudo vencer pode co'engenho e arte.
Eis um santo elixir miraculoso que vem de longes terras,
transpondo montes, serras,
e a mim chegou por modo misterioso.
Um pajé sem tesão, um nigromante das matas de Goiás,
sentindo-se incapaz de bem cumprir a lei do matrimônio,
foi ter com o demônio, a lhe pedir conselho
para dar-lhe vigor ao aparelho,
que já de encarquilhado, de velho e de cansado,
quase se lhe sumia entre o pentelho.
À meia-noite, à luz da lua nova,
co'os manitós falando em uma cova,
compôs esta triaga de plantas cabalísticas colhidas,
por sua próprias mãos às escondidas.
Esse velho pajé de pica mole, com uma gota desse feitiço,
sentiu de novo renascer os brios de seu velho chouriço!
E ao som das inúbias, ao som do boré,
na taba ou na brenha, deitado ou de pé,
no macho ou na fêmea de noite ou de dia,
fodendo se via o velho pajé!
Se acaso ecoando na mata sombria,
medonho se ouvia o som do boré
dizendo: "Guerreiros, ó vinde ligeiros,
que à guerra vos chama feroz aimoré",
- assim respondia o velho pajé,
brandindo o caralho, batendo co'o pé:
- Mas neste trabalho, dizei, minha gente,
quem é mais valente, mais forte quem é?
Quem vibra o marzapo com mais valentia?
Quem conas enfia com tanta destreza?
Quem fura cabaços com gentileza?"
E ao som das inúbias, ao som do boré,
na taba ou na brenha, deitado ou de pé,
no macho ou na fêmea, fodia o pajé.
Se a inúbia soando por vales e outeiros,
à deusa sagrada chamava os guerreiros,
de noite ou de dia, ninguém jamais via
o velho pajé, que sempre fodia
na taba na brenha, no macho ou na fêmea,
deitando ou de pé, e o duro marzapo,
que sempre fodia, qual rijo tacape
a nada cedia!
Vassouras terrível dos cus indianos,
por anos e anos, fodendo passou,
levando de rojo donzelas e putas,
no seio das grutas fodendo acabou!
E com sua morte milhares de gretas
fazendo punhetas saudosas deixou...
Feliz caralho meu, exulta, exulta! Tu que aos conos fizeste guerra viva,
e nas guerras de amor criaste calos, eleva a fronte altiva;
em triunfo sacode hoje os badalos; alimpa esse bolor, lava essa cara,
que a Deusa dos amores, já pródiga em favores
hoje novos triunfos te prepara,
graças ao santo elixir que herdei do pajé bandalho,
vai hoje ficar em pé o meu cansado caralho!
Sus, caralho! Este elixir ao combate hoje tem chama
e de novo ardor te inflama para as campanhas do amor!
Não mais ficará à-toa, nesta indolência tamanha,
criando teias de aranha, cobrindo-te de bolor...
Este elixir milagroso, o maior mimo na terra,
em uma só gota encerra quinze dias de tesão...
Do macróbio centenário ao esquecido mazarpo,
que já mole como um trapo, nas pernas balança em vão,
dá tal força e valentia que só com uma estocada
põe a porta escancarada do mais rebelde cabaço,
e pode em cento de fêmeas foder de fio a pavio,
sem nunca sentir cansaço...
Eu te adoro, água divina, santo elixir da tesão,
eu te dou meu coração, eu te entrego a minha porra!
Faze que ela, sempre tesa, e em tesão sempre crescendo,
sem cessar viva fodendo, até que fodendo morra!
(Bernardo Guimarães - Esse mesmo, o da Escrava Isaura... Pode?!! Ele era danadinho, né?...) posted by Amana Rodrigues
2:42 PM
Saí de Porto Alegre na segunda as dez da noite, depois de fazer um passeio divertidíssimo pela cidade, num frio que eu nunca tinha visto na vida e que eu passei o fim de semana inteiro pedindo para acontecer. Desembarquei em São Paulo as quatro da tarde da terça, completamente gripada e chapada de Dramin e terminei a viagem das sete da noite as três da madruga. Na quarta eu retornei definitivamente a vida, inclusive porque a diretora do Pedro II me chamou de novo para dar aulas. Que beleza. Se tivesse rezado, pedindo pra ser assim, com certeza não teria sido. Mentira. Que injustiça. Talvez teria, sim. Enfim & bla.
Hoje, sabadeira, eu passei o dia todo com o Pedrinho discutindo coisa do tipo: como deveria ser realmente interpretada, a parte polêmica da Bíblia sobre a expulsão de Adão e Eva do paraíso e de terem sido proibidos de comer da árvore da vida. Será que tava tudo combinado? O cara que escreveu o Livrão tava com umas idéias bem pretensiosas... Nussa. E depois: café, chocolate, o cristianismo antes e depois de Cristo, paganismo e os cultos a Dionísio, a natureza, a busca, o surto, o Daime, o Judaísmo, a Maçonaria, os equívocos, a loucura total, o caminho, a verdade e a vida. Mais café quando a cabeça esquentou e ainda: hinos, livros (O elixir do pajé, inclusive) etc. Quando o Paulo chegou já nem dava mais pra falar de algo que pudesse mudar o mundo, só assuntos de pouca importância para a humanidade em si. Cheguei aqui agora e o Paulo já apagou. Fiquei com um pouco de insônia depois de ter salvo a humanidade de todos os equívocos de sua condição. Oh! Estou exausta. Corrigir o mundo é realmente uma tarefa muito difícil.