Blog de assuntos gerais e pessoais; revolta explícita; desejos irrepresentáveis; manifestação de sentimento negativo, cujo nome não deve mais ser escrito ou falado (por motivo de pura superstição); euforias; singelezas; arrepios; tpms; confabulações; autismos e afins...
Primeiro era noite, estava num bar com o Paulo e conosco, o sócio dele. Eu tinha um sentimento de raiva misturado com saudade. Achava ele divertido, mas não pude continuar na mesa. Conheci uma mulher loira (tingida), da pele meio morena e duma personalidade forte e engraçada, com quem fui me sentar na mesa ao lado. Ela fazia radialismo e já tinha se formado em advocacia, dizia. Conversávamos sobre o apocalipse. Eu mais ouvia que falava. Não sabia o que dizer. Não tinha opinião. Não me lembro mais do que de algumas expressões, uns risos e uma conversa atravessada ou outra. Um tempo depois ela teve que ir embora e eu fiz questão de levá-la até a rua. O bar era amarelo por fora e para entrar tinha que subir umas escadas estreitas, pois era como uma sobreloja. Ela estava de moto. Quando nos despedimos, abraçamo-nos. E como estava bom, abracei mais forte e ela retribuiu sorrindo muito. Tinha feito uma amiga incrível, sentia. Depois de me despedir, não pude voltar a estar com os outros dois naquela situação enjoativa. Tive que mudar de sonho.
Então era dia. Estávamos, Paulo e eu, chegando à praia. Já na chegada, me deparei com uma cena incrível de uma mãe e seu bebê voando de asa delta. O bebê ia pendurado numa espécie de assento, de frente para o vento, com um rosto tranquilo e aproveitando muito a sensação. Enquanto sua mãe ia também dependurada, deitada abaixo da criança, com a cabeça voltada para a frente, porém com a barriga virada para o bebê, ou seja, de costas para o chão. Ela também estava muito relaxada e virava a cabeça para ver o que vinha à frente, mas sua visão era ao contrário. Apreciei esta cena de várias maneiras, inclusive de muito perto, como se houvesse uma câmera que captasse as expressões com exatidão ou se, de alguma forma, eu estivesse mesmo lá. Depois de um tempo me intriguei com o fato dela nao estar dirigindo e percebi que nao era uma asa delta comum, pois estava presa a um carrinho, tipo esses de controle remoto, mas bem grande, que a puxava e de alguma maneira, fazia com que aquilo saísse e voltasse ao chão em segurança. Sob o carrinho havia uma estradinha de cimento, que desaparecia entre as dunas de areia, deixando ver apenas a asa delta. Fomos ao local do pouso, ao pé de um bar de madeira azul-claro e na pedra aonde se estacionava o carrinho, havia o nome das demais pessoas que "voariam" na asa delta, em sequencia. Havia vários nomes. Além do "mãe com bebê", que já estava riscado, também havia algo como "duas crianças", "homem cego" e outros. O último nome da lista era "mulher pelada". Olhei em volta e a vi. Lá estava a mulher pelada, que ia voar por último. Era uma mulher comum, com um corpo comum, nem muito gorda nem muito magra, nem muito alta nem muito baixa e com uma enorme cabeleira encaralolada e cor de telha. Andava pra lá e pra cá na areia e não estava nem aí. Procurei pelo Paulo imediatamente com os olhos e ele estava no bar vendo televisão e parecia não tê-la visto. Quis mandá-lo de volta pra casa, mas me esqueci totalmente e fui fazer outras coisas. Acabei eu mesma voltando pra casa. O Paulo de repente chegou em casa e eu perguntei se ele tinha visto a mulher pelada voar, mas ele disse que não, mas que ela já estava se preparando. Liguei a tv e a mulher pelada estava lá, já toda pintada com flores e borboletas para voar na asa delta. Era uma apresentação. Ela tb estava falando umas coisas sobre o apocalipse na tv, seríssima. E continuava com cara de que não ligava a mínima. Fui vê-la na praia. A asa delta decolou, o carrinho sumiu na primeira curva das dunas e vimos todos a asa delta despencar numa explosão sobre uma árvore, lá na frente. Foi uma queda feia. A "bolsa" que segurava a mulher se desfez em uma rede e era possível ver seu corpo caindo da asa delta para árvore, desta árvore para uma árvore menor e depois para dentro de um enorme buraco no chão. Em segundos eu estava lá perto dela, com a equipe de tv. Tiraram-na da rede. Ela se sacudiu, sempre com a mesma cara. Antes de sair buraco, ela disse pra mulher da tv: "espere aí, quero conhecer as árvores que me derrubaram" pegou uma folha de cada árvore e com muita calma disse a elas "porque vcs me derrubaram, heim?". Fiquei impresionada com a tolerância. A primeira árvore, respondi pra ela que era uma goiabeira e que eu sabia pois na minha terra havia muitas. A segunda, nunca tinha visto. Disseram que era um pé de melancia. Achei interessante aquilo e fui saindo do buraco por monte de areia, mas como não consegui, tive que dar a volta. Duas coisas me intrigavam enquanto saía de lá: o apocalipse e o pé de melancia. E com uma cara de "será?", bati uma mão na outra pra limpar a areia e fui embora acordar.
Então... Já que não tive ninguém pra quem contar logo cedo, já devo estar pela metade, quando o Paulo eu recebemos, pela fresta da porta de nossa casa, a chave de uma casa de banhos , como num gesto de caridade de uma colega minha da sexta série que não já vejo há uns bons 16 anos. Nossa casa era, na verdade, uma quarto grande e incrivelmente bagunçado ao fim de um corredor escuro, dentro da casa dessa colega, que morava com a família, tal como me recordo na infância. Estávamos os dois com muito sono, mas ja era dia há muito tempo. Entramos sonolentos no banheiro, onde havia uma enorme banheira azul-escuro, onde podíamos deitar os dois, confortavelmente, como se fosse uma cama de casal. Num instante já estávamos deitados, pelados, com a água quente escorrendo sobre nós. E como se não houvesse mundo em volta, apagamos daquele jeito. Passaram-se horas. E sabia disso pq acordei já sem sono e morrendo de frio, porque o fio de água quente estava apenas sobre o Paulo e meus dedos estavam enrugados da água que esfriou ao meu redor. Levantei num pulo, assustada e me dei conta de que as pessoas da casa estavam lá o tempo todo e que deviam estar pensando horrores de nós por estarmos a tanto tempo com a água a correr. (Aqui na Europa isso é um assunto realmente sério.) No entanto, não se manisfestaram. Estava lá a minha coleguinha, da mesma forma como a vi há anos. Ofereceu-nos o almoço, então sentamos à mesa e comemos na companhia também do seu pai e seus irmãos, cuja imagem era pouco nítida, provavelmente por já me falhar a memória de seus rostos. O Paulo sempre, como uma sombra. Não dizia uma palavra e estava totalmente apático. Depois disso, fomos à rua. Era um dia nublado e o chão estava molhado, como se tivesse acabado de chover. Eu estava agasalhada, mas sentia frio. Sentamo-nos sob um toldo de lona amarela de um boteco muito simples, de onde víamos a entrada de uma faculdade. Atravessei a rua e vi um grupo de alunos preparando um desfile com enomes dragões orientais.