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Blog de assuntos gerais e pessoais; revolta explícita; desejos irrepresentáveis; manifestação de sentimento negativo, cujo nome não deve mais ser escrito ou falado (por motivo de pura superstição); euforias; singelezas; arrepios; tpms;
confabulações; autismos e afins...

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Terça-feira, Novembro 27, 2007


Mais uma cá da terrinha

Um dia desses eu tava indo com o Paulo pra academia de Custóias num ônibus (que para não parecermos normais precisamos chamar de autocarrro) às 6 da tarde, pico total, tava muito cheio. Acabei sentada de frente pra duas crianças portuguesas duns 4 anos de idade (que aqui são chamadas de PUTOS). Elas puxaram conversa sobre as vacas de plástico que tinham presas aos seus lápis, ótimo, pensei, adoro conversar com crianças. Mas perguntas delas sobre o que eu sabia a respeito dos ruminantes cessaram pra sempre quando comecei a dar a falar a respeito. Então, a cara dos putos é que foi ficando cada vez mais interrogativa e atenciosa, à medida em que eu adentrava o assunto, como as dos cãezinhos quando vêm uma coisa estranha pela primeira vez, sabe? Com a cabeça meio torta e um olhar de "o que será isso?"... Já pensava comigo que tinha ganho totalmente a admiração dos pirralhos, com meu vasto conhecimento e amor pelas vacas, quando a menina não se conteve mais na sua agonia e soltou: "Tais a falar em chinês?"

:P

Eu mereço.




mas pode falar, se quiser.


Msn Today



6:57 da manhã, numa insônia e cólica e crise existencial do caralho. Eu precisava dialogar, senão a cabeça, não sei não... Entrei no msn, q é praticamente a minha única chance de contato com o mundo real, embora virtual e não tinha niguém on, lógico.

Resolvi então, no auge da minha reflexão sobre a infinita possibilidade do ser X a irritante obrigatoriedade do ter, ler as frases que passaram a substituir ou completar os nomes dos meus amigos/conhecidos/nuncavimaisgordos naquela lista infinita. Então... Foi a melhor coisa que eu podia ter feito à altura. O universo fantástico dos nicks de msn da minha lista me ajudou a conter a minha ansiedade e me inspirou, além de me dar conselhos maravilhosos para a vida, dentre outros. Aí estão eles, na ordem como os encontrei, para que talvez possam ajudar mais alguém:

-A gnt ensina, ajuda e esses merdas sacaneiam!!mas eu aviso:QUEM SEMEIA VENTO COLHE TEMPESTADE! VC É MAL?? AGORA VAI VER MALDADE!!
- aiai vou entrar de férias...ohhh vida boa...érias...ohhh vida boa...
- a vida tem que ser vivida com intensidade
- Maluquice é coisa de maluco!é coisa de maluco!
- And now, I`m really an advertiser... Leaving Brazil...
- Pronto p/ evoluir...
- A fé em Deus nos faz crer no incrível, ver o invisível e realizar o impossível
- Fecho os meus olhos e sinto você chegar...
- ....Final de semestre...muito trabalho.
- Cuide bem dos animais...
- tamo q tamo!!!
- To paixonado uai e dai...!!!
- "O mundo só será mundo quando o ultimo pagodeiro morrer enforcado numa corda de uma guitarra..."
- Em BUscA dA proDuÇÃo PerDidA_______ sEmpRe GaLoToOrA ________
- Não aceitamos parcerias! Enviem proposta de qualquer forma por mail! Boa Sorte
- "o tempo engana aqueles que pensam que sabem demais, existem tb aqueles que juram sem saber..."
- "eu quero ficar só, mas comigo só eu n consigo....quero um amor maior , um amor maior que eu"
- "É quando se sente dor no coração que a motivação vai a 1000"
- porfavooooooooorrr
- Ñ tenha medo de ser feliz,entregue-se para a magia q é viver,aproveite cda minuto como se fosse único!
- Cheguei hein... acabou esse silencio todo....uhaahahuaha
- coisa mais linda da titia....
- conhece a ti mesmo
- Arte acima de TUDO
- E eu, que estava quase morrendo, pensando que era por causa da cachaça e da cerveja... Era o LEITE, kkkk.....
- De malas prontas, to indo pra Bahia...
- e me demito - south america,I go
- Alláh u Akbar!!!!! áh u Akbar!!!!!
- No para
- "Onde pisas o chão minha alma salta!" ão minha alma salta!"
- A vida é dura é dura
- Eu sou a lotus que nasce no lodo..
- Ocupadissimaaaaaaaaa!Sou feliz!
- foi vc que fez meu mundo desandar me perder ou te encontrar se conto as horas pra te convencer ....
- o homem so pode ser julgado pelo carater e so o tempo revela o verdadeiro carater das pessoas.
- "Num dói nada....peraí só um minutin.....cacête de agulha!!"
- simplesmente...
- Apaixonado pela vida, mais sem pespctiva alguma!
- lendo regras.....aff...
- ...tatuando
- Porto, Portugal
- Sarei!
- ocupadissima
- tudo certo. Eu - inverso
- Momento Zen.....
- esperando...
- Nunca deixes para amanhã o que podes fazer hojeã o que podes fazer hoje
- os homens podem vir ki nao vao me abalar,os caes farejam medo logo nao vao me encontrar...
- Hoje Deus me ajuda!!!
- Só sei que nada sei...
- pira ta?
- por que é que tem que ser assim, se o meu desejo não tem fim?!
- Volto em 1 hora
- C'est la vie ... uh-la-lá! á!
- I'm Back.
- estudando (pelo menos tentando)
- Muita saudade!!!!!!!!!!!!
- Cada vez mais interessante!!!!!


Opcevê... E nem tem que pagar a consulta... heheh




mas pode falar, se quiser.

Sábado, Novembro 17, 2007




Sábado de cobertas.




mas pode falar, se quiser.

Sexta-feira, Novembro 16, 2007



Agúia grande dos inferno, sô!
Pra quê isss tudo?


Ah não... não resisti... tive que postar.



Eu vejo isso pelo menos 3 vezes por dia.

E me identifico MUITO!

heuheuheuh



mas pode falar, se quiser.

Quinta-feira, Novembro 15, 2007



Depois que o Paulo já tinha desistido da idéia besta de comer o nosso único enfeite de natal, numa crise súbita de ansiedade, não me contive e ataquei o Papai Noel de chocolate que há quase duas semanas habitava sorridente nossa mesa da sala. Péssimo! Não o chocolate (que tava uma delícia, contrariando as expectativas de que seria horrível, pelo preço que custou), mas essa minha atitude desesperada, adolescente, feminina e infrutífera... Tsc tsc tsc... O ataque, na esperança de que a cabeça melhoraria logo depois de uma onda intensa de satisfação e prazer, não me rendeu nada além das calorias extras. Além disso, me tornei uma pessoa extremamente instável e sem palavra para o meu namorado, pois a simples ideia de se tocar na guloseima decorativa já tinha sido estabelecida como um crime doméstico, depois de render várias brigas. Fazer o quê... Amanhã compro outro pai natal de 0,99 e tento reestabelecer a sanidade mental, que tá difícil de manter aqui. Hummm... Já até sei o que vou pedir para o bom velhinho esse ano... Rô! Rô! Rô!




mas pode falar, se quiser.



Eu aqui, no meio da vida





olha a rosa amarela, a rosa
tão formosa e tão bela, a rosa
olha a rosa amarela, a rosa
tão formosa e tão bela, a rosa
iá-iá meu lenço, ô iá-iá
para me enxugar, ô iá-iá
que esta despedida, ô iá-iá
já me fez chorar, ô iá-iá



mas pode falar, se quiser.

Quinta-feira, Novembro 08, 2007





Não ter muito com quem falar, ainda vá lá, que eu falo sozinha não é de hoje.
Mas não ter nunca com quem cantar, putamerda, tá triste demais.








Chega a sufocar.







mas pode falar, se quiser.

Quarta-feira, Novembro 07, 2007


Olhos de cão azul

Gabriel García Márquez


Então olhou para mim. Pensava que olhava para mim pela primeira vez. Mas então, quando se virou por trás do abajur, e eu continuava sentindo sobre o ombro, nas minhas costas, seu escorregadio e oleoso olhar, compreendi que era eu quem a olhava pela primeira vez. Acendi um cigarro. Traguei a fumaça áspera e forte, antes de fazer girar a cadeira, equilibrando-a sobre uma das pernas posteriores. Depois disso a vi ali, como havia estado todas as noites, de pé junto ao abajur, me olhando. Durante breves minutos não fizemos nada mais que isto: olhar-nos. Eu, olhando-a da cadeira, equilibrando-me numa das pernas traseiras. Ela, em pé, me olhando, com uma das mãos, comprida e quieta, sobre o abajur. Via as pálpebras iluminadas como todas as noites. Foi então que lembrei o de sempre, quando lhe disse: "Olhos de cão azul". Ela me disse, sem tirar a mão do abajur: "Isso. Já não o esqueceremos nunca". Saiu da órbita suspirando: "Olhos de cão azul. Escrevi isso por todas as partes”.

Vi-a caminhar em direção à cômoda. Vi-a aparecer na lua circular do espelho, olhando-me agora no final duma ida e volta de luz matemática. Vi-a continuar me olhando com seus grandes olhos de cinza acesa: olhando-me enquanto abria uma caixinha revestida de nácar rosado. Vi-a passar pó-de-arroz no nariz. Quando acabou de fazer isso, fechou a caixinha e voltou a ficar em pé e andou novamente em direção ao abajur, dizendo: "Temo que alguém sonhe com este quarto e mexa nas minhas coisas"; e estendeu sobre a chama a mão comprida e trêmula, a mesma que estivera esquentando antes de sentar-se em frente ao espelho. E me disse: "Você não sente o frio". E eu lhe disse: "Às vezes". E ela me disse: "Você deve senti-lo agora". E então compreendi por que não tinha podido ficar sozinho na cadeira. Era o frio o que me dava certeza da minha solidão. "Agora o sinto", disse. "E é raro, porque a noite está quieta. Talvez o lençol tenha rodado". Ela não respondeu. Começou a se mexer em direção ao espelho e voltei a girar sobre a cadeira para ficar de costas para ela. Embora sem vê-Ia, sabia o que estava fazendo. Sabia que estava outra vez sentada diante do espelho, vendo minhas costas, que haviam tido tempo para chegar até o fundo do espelho, e serem encontradas pelo seu olhar, que também havia tido o tempo justo para chegar até o fundo e regressar antes que a mão tivesse tempo de iniciar a segunda virada — até os lábios que estavam agora pintados de carmim, da primeira virada da mão em frente ao espelho. Eu via, à minha frente, a parede lisa, que era como outro espelho cego, onde eu não a via sentada às minhas costas, mas imaginando onde estaria, se no lugar da parede tivesse sido colocado um espelho. "Estou vendo você", disse-lhe. E vi, na parede, como se ela tivesse levantado os olhos e me visto de costas na cadeira, ao fundo do espelho, com o rosto voltado para a parede. Depois vi-a abaixar as pálpebras, outra vez, e ficar com os olhos quietos no seu sutiã, sem falar. E voltei a lhe dizer: "Estou vendo você." E ela voltou a levantar os olhos do sutiã. "É impossível", disse. Eu perguntei por quê. E ela, com os olhos outra vez quietos no sutiã: "Porque você tem o rosto voltado para a parede". Então eu fiz girar a cadeira. Tinha o cigarro apertado na boca. Quando fiquei de frente para o espelho, ela estava outra vez junto do abajur. Agora tinha as mãos abertas sobre a chama, como duas asas abertas de galinha, sendo assada, e com o rosto sombreado pelos próprios dedos. "Acho que vou me resfriar", disse. "Esta deve ser uma cidade gelada”. Voltou o rosto de perfil e sua pele de cobre vermelho se tornou repentinamente triste. "Faça alguma coisa contra isso", disse. E ela começou a tirar a roupa, peça por peça, começando por cima; pelo sutiã. Disse-lhe: "Vou me virar para a parede". Ela disse: "Não. De todas as maneiras você vai me ver, como me viu quando estava de costas". Mal tinha acabado de dizer isso e já estava despida quase por completo, com a chama lambendo-lhe a comprida pele de cobre. "Sempre tinha querido ver você assim, com o couro da barriga cheio de buracos fundos, como se houvessem feito você a pauladas". E antes que eu me desse conta de que minhas palavras se tinham tornado torpes diante da sua nudez, ela ficou imóvel, esquentando-se na órbita do abajur, e disse: "Às vezes creio que sou metálica". Manteve o silêncio por um instante. A posição das mãos sobre a chama mudou levemente. Eu disse: "Às vezes, em outros sonhos, pensei que você é apenas uma estatueta de bronze num canto de algum museu. Talvez por isso sinta frio". E ela disse: "Às vezes, quando durmo sobre o coração, sinto que o corpo fica como um ovo, e a pele como uma lâmina. Então, quando o sangue me bate por dentro, é como se alguém me estivesse chamando com os nós dos dedos na barriga, e sinto meu próprio som de cobre na cama. É como se fosse assim como você diz: de metal laminado". Aproximou-se mais do abajur. "Teria gostado de ouvir você", disse. E ela disse: "Se alguma vez nos encontrarmos ponha o ouvido nas minhas costelas, quando eu dormir sobre o lado esquerdo, e me ouvirá ressonar. Sempre desejei que você alguma vez fizesse isso”. Ouvi-a respirar fundo enquanto falava. E disse que durante anos não tinha feito nada diferente disso. Sua vida estava dedicada a me encontrar na realidade, por meio dessa frase identificadora. "Olhos de cão azul." E na rua ia dizendo em voz alta, que era uma maneira de dizer à única pessoa que teria podido compreendê-la:

"Eu sou a que chega em seus sonhos todas as noites e lhe diz isto: olhos de cão azul". E ela disse que ia aos restaurantes e dizia para os garçons, antes de fazer o pedido: "Olhos de cão azul". Mas os garçons lhe faziam uma respeitosa reverência, sem que houvessem lembrado nunca ter dito isso nos seus sonhos. Depois escrevia nos guardanapos e riscava com a faca o verniz das mesas: "Olhos de cão azul". E nos cristais embaçados dos hotéis, das estações, de todos os edifícios públicos, escrevia com o indicador: "Olhos de cão azul". Disse que uma vez chegou a uma drogaria e percebeu o mesmo cheiro que tinha sentido no seu quarto uma noite, depois de ter sonhado comigo: "Deve estar perto", pensou, vendo a cerâmica limpa e nova da drogaria. Então se aproximou do vendedor e lhe disse: "Sempre sonho com um homem que me disse: "Olhos de cão azul". E disse que o vendedor a havia olhado nos olhos e dito: "Na verdade, moça, a senhora tem os olhos assim". E ela disse: "Preciso encontrar o homem que me diz isso nos sonhos". E o vendedor começou a rir e foi para o outro lado do balcão. Ela permaneceu olhando o ladrilho limpo do chão e sentindo o cheiro. E abriu a bolsa e se ajoelhou e escreveu com o batom sobre o ladrilho, com grandes letras vermelhas: "Olhos de cão azul". O vendedor regressou de onde se encontrava. Disse-lhe: "Moça, a senhora sujou o ladrilho". Deu-­lhe um pano úmido, dizendo: "Limpe-o". E ela disse, ainda junto ao abajur, que passou a tarde toda agachada, lavando o ladrilho e dizendo: "Olhos de cão azul", até que as pessoas se aglomeraram na porta e disseram que estava louca.

Agora, quando acabou de falar, eu continuava no canto, sentado, equilibrando-me na cadeira. "Tento me lembrar todos os dias da frase com que preciso encontrar você", disse. "Agora creio que amanhã não a esquecerei. Mas sempre esqueço ao acordar quais são as palavras com que posso encontrar você". E ela disse: "Você mesmo as inventou desde o primeiro dia". E eu lhe disse: "Inventei-as porque vi seus olhos cor de cinza. Mas nunca me lembro delas na manhã seguinte." E ela, com os punhos fechados junto ao abajur, respirou fundo: "Se pelo menos pudesse recordar agora em que cidade estive escrevendo isso".

Seus dentes apertados resplandeceram sobre a chama. "Eu gostaria de tocar em você agora", disse. Ela levantou o rosto que estivera olhando a luz: levantou o olhar ardente, assando-se também do mesmo jeito que ela, do mesmo jeito que suas mãos: e eu senti que me viu, no canto, onde continuava sentado, me balançando na cadeira. "Você nunca me tinha dito isso", disse. "Agora digo, e é verdade", disse. Do outro lado do abajur ela me pediu um cigarro. O toco tinha desaparecido dos meus dedos. Esquecera que estava fumando. Disse: "Não sei por quê, não posso lembrar onde o escrevi". E eu lhe disse: "Pela mesma razão pela qual eu não poderei lembrar as palavras amanhã". E ela disse, triste: "Não. É que às vezes creio que também sonhei isso". Fiquei em pé e andei até o abajur. Ela estava um pouco mais para lá, e eu continuava andando, com os cigarros e os fósforos na mão, e não passaria o abajur. Aproximei dela o cigarro. Ela o apertou entre os lábios e se inclinou para atingir a chama, antes que eu tivesse tempo de acender o fósforo. "Em alguma cidade do mundo, em todas as paredes, têm que estar escritas estas palavras: 'Olhos de cão azul", disse. "Se amanhã me lembrasse delas iria buscar você". Ela levantou outra vez a cabeça e já tinha a brasa acesa nos lábios."Olhos de cão azul", suspirou, recordando, com o cigarro jogado sobre o queixo e um olho semifechado. Aspirou a fumaça, com o cigarro entre os dedos, e exclamou: "Já isto é outra coisa. Estou me sentindo mais quente". E disse-o com a voz um pouco morna e fugidia, como se não o tivesse dito realmente, mas como se houvesse aproximado o papel à chama enquanto eu lia: "Estou entrando — e ela tivesse continuado com o papelzinho entre o polegar e o indicador, virando-o, enquanto ia se consumindo e eu acabava de ler — ­... mais quente", antes que o papelzinho se consumisse por completo e caísse ao chão amassado, diminuído, convertido num leve pó de cinza. "Assim, é melhor", disse. "Às vezes me dá medo ver você assim. Tremendo junto ao abajur".

Há vários anos nos víamos. Às vezes, quando já estávamos juntos, alguém deixava cair lá fora uma colherinha e acordávamos. Pouco a pouco íamos compreendendo que nossa amizade estava subordinada às coisas, aos acontecimentos mais simples. Nossos encontros terminavam sempre assim, com o cair de uma colherzinha na madrugada.

Agora, junto ao abajur, estava me olhando. Eu lembrava que antes também me havia olhado assim, desde aquele remoto sonho em que fiz a cadeira girar sobre as pernas traseiras e fiquei diante de uma desconhecida de olhos cinzentos. Foi nesse sonho que perguntei a ela pela primeira vez:"Quem é a senhora?" E ela me disse: "Não lembro". Eu lhe disse: "Mas acredito que nos vimos antes". E ela disse, indiferente: "Creio que alguma vez sonhei com o senhor, com este mesmo quarto". E eu lhe disse: "É isso. Já começo a lembrar". E ela disse: "Que curioso. É verdade que temos nos encontrado em outros sonhos".

Deu duas chupadas no cigarro. Eu estava ainda em pé em frente ao abajur, quando fiquei olhando para ela de repente. Olhei-a de cima a baixo e ainda era de cobre; mas já não de metal duro e frio, senão de cobre amarelo, macio, maleável. "Gostaria de tocar em você", voltei a dizer. E ela disse: "Você jogaria tudo por água abaixo", voltou a dizer, antes que eu pudesse tocá-la. "Talvez, se você se virar por trás do abajur, acordaríamos sobressaltados quem sabe em que parte do mundo". Mas eu insisti: "Não importa". E ela disse:"Se virássemos o travesseiro, voltaríamos a nos encontrar. Mas você, quando acordar, terá esquecido tudo". Comecei a me mexer em direção ao canto. Ela ficou por trás, esquentando as mãos sobre a chama. E eu ainda não estava junto da cadeira quando a ouvi falar às minhas costas: "Quando acordo à meia-noite, fico revirando-me na cama, com os fios do travesseiro ardendo no joelho e repetindo até o amanhecer: 'Olhos de cão azul'".

Então fiquei com o rosto na parede. "Já está amanhecendo", disse sem olhar para ela. "Quando deram duas da manhã, estava acordado, já fazia bastante tempo." Dirigi-me até a porta. Quando tinha pegado a maçaneta, ouvi outra vez sua voz igual, invariável: "Não abra essa porta", disse. "O corredor está cheio de sonhos difíceis". E eu lhe disse: "Como você sabe disso?" E ela me disse: "Porque há pouco estive ali e tive que voltar quando descobri que estava dormindo sobre o coração". Eu mantinha a porta entreaberta. Movi um pouco o batente, e um ar frio e tênue me trouxe um cheiro fresco de terra vegetal, de campo úmido. Ela falou outra vez, virei-me, mexendo ainda o batente montado em gonzos silenciosos, e lhe disse: "Creio que não há nenhum corredor aqui fora. Sinto o cheiro do campo". E ela,já um pouco longe, me disse: "Conheço isso mais do que você. O que acontece é que lá fora há uma mulher sonhando com o campo". Cruzou os braços sobre a chama. Continuou falando: "É essa mulher que sempre desejou ter uma casa no campo e nunca pôde sair da cidade". Eu lembrava ter visto a mulher num outro sonho anterior, mas sabia, já com a porta entreaberta, que dentro de meia hora tinha que descer para o café da manhã. E lhe disse: "De todas maneiras, tenho que sair daqui para acordar".

Lá fora o vento bateu um instante, ficou quieto depois, e ouviu-se a respiração de alguém adormecido que acabava de virar-se na cama. O vento do campo suspendeu-se. Já não houve mais odores. "Amanhã vou reconhecer você por isso", disse. "Vou reconhecê-la quando vir na rua uma mulher que escreva nas paredes: 'Olhos de cão azul'". E ela, com um sorriso triste — que já era um sorriso de entrega ao impossível, ao inatingível —, disse: "Não obstante, você não lembrará nada durante o dia". E voltou a pôr as mãos sobre o abajur, com a expressão obscurecida por uma névoa amarga: "Você é o único homem que, ao acordar, não se lembra nada do que sonhou".



mas pode falar, se quiser.




Dois passos até lá.
Duas neosaldinas pra ajudar a chegar.




mas pode falar, se quiser.




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Contador que eu pus qdo o blog fez 2 anos: