Este blog, atualmente, não passa de um meio de (quase) comunicação entre mim e os meus amores que deixei do outro lado do mar. Enquanto moro deste lado, só serve para eu pagar minha língua e falar de solidão e exprimir minhas saudades e dar poucas notícias e prestar alguma homenagem e admitir o medo que tenho de ser esquecida e citar meus novos apegos e ser tão baranga e dramática quanto puder.
Já são 8:40 da manhã. Digo já, porque hoje ainda é ontem pra mim, que ainda não dormi. O despertador do Paulo já tocou há 11 minutos e ele ainda não se levantou para o compromisso que tem às 10, em Gaia. A obra aqui do lado, na faculdade de direito, ja está a todo vapor. A lei do silêncio, aqui, não garante o sono até as 10, só até as 8. Ainda não sei se nós é que somos mesmo uns vagabundos de não estarmos já de pé qdo ela começa ou se toda a gente do prédio fica com o mesmo ódio que nós. Estamos ficando loucos, pq o barulho não é nada razoável. "Temos que nos mudar" é uma frase constante na nossas manhãs, mas como o Senhor Nazaré nos deixou ficar, mesmo depois do contrato ter vencido, sem precisar nos comprometer a ficar mais x tempo, ficamos. E, provavelmente, vamos ficar até a obra acabar e ainda mais e mais, e pr'além do tempo do compromisso evitado, porque a verdade veradadeira é que a inércia impera neste lar, infelizmente.
Hoje tenho que provar os figurinos da peça que estou a ensaiar e, se calhar, estar com eles durante todo o ensaio. Isso vai ser um parto pra mim. Fotos, mais tarde, podem confirmar o que estou dizendo, mas não aqui, lógico, só para os mais íntimos e os menos críticos. A minha cabeça tá fritando, claro, mas isso não é nenhuma novidade. Estive a madrugada a ver, junto com uns colegas, minhas fotos do Brasil... A maior saudade que eu senti foi de mim mesma, uma saudade daquelas, que sentimos de alguém que sabemos que não vai mais voltar, mas que mesmo assim, está tudo bem... Uma saudade feliz, por ser saudade... Só agora, confesso, começo a sentir que estou mesmo aqui... Até pouco tempo só conseguia sentir que, de fato, não estava mais aonde contumava ser o meu lugar, então estava em lugar nenhum. É que eu devo ter sido um tatu-bolinha na última ecarnação e ainda devo andar com a paranóia autista de me fechar hermeticamente ao menor sinal de desconforto. Estive quase sempre só em mim, durante esse período todo, mas apesar de estranhíssimo e enlouquecedor, foi muito proveitoso por um lado, pois descobri coisas importantíssimas de se descobrir. Agora, nesse momento, estou apaixonada. Infelizmente ainda não é por mim mesma, que seria o ideal, mas pelo conjunto de situações que vêm me acontecendo, junto com as pessoas protagonistas das situações, mesmo as das mais embaraçosas.
Tenho que criar tenência e arranjar a minha vida. Organizar a casa, recobrar meu poder autoritário, que não me lembro aonde deixei e nunca mais permitir que o Paulo faça a zona que vem fazendo na cozinha, sem nunca tomar a iniciativa de limpar. Preciso de um horário fixo, um ansiolítico, meia dúzia de amigos que não se importam se a casa mais parece uma lixeira e uma roda de violão com sambas lindos que eu saiba cantar. É quase só isso que eu peço a Deus. Com isso e mais algumas dezenas de coisinha aqui e ali, penso que consigo me arranjar bem, desde a peça já tenha terminado e que eu tenha conseguido manter a minha escassa normalidade, depois disso. Agora já são 9:09, do horário de primavera. O Paulo ainda não se levantou para o compromisso que tem às 10, em Gaia. Comi quase um pacote inteiro de pão de forma integral, ou seja, do que engorda integralmente, como se não fosse hoje que terei de fazer todo o ensaio com o figurino que me envergonha por existir. Ainda por cima, tenho que comprar um sutiã especial e ainda nem fui dormir, pra poder acordar a tempo de ir comprar.
Mandei um e-mail pra Rosa agora há pouco, com duas músicas "Rosa": a do Chico e a do Pixinguinha. Se eu me chamasse Rosa, adoraria recebê-las e mesmo se não me chamasse (e não me chamo). Ela, a Rosa, não sei (pois presume-se que não temos uma relação que permita o envio de músicas pelo e-mail), mas eu arrisquei. É que estou apaixonada por ela desde o primeiro dia. É uma presença fantástica. E quando ela se levanta para fazer uma demonstração, por mínima que seja (pq ela sabe bem o valor de cada uma dessas) eu me babo toda. Ela está sendo generosa e tentando, do seu jeito muito particular, ser paciente (depois de ter percebido se não fosse assim, não iria muito adiante e ainda, de quebra, ganharia uma gastrite e uns desafetos) mas mesmo assim, sei que vou muito aquém do que ela espera, pois infelizmente, em uma determinada altura, eu travei daquele jeito infernal e pra sempre... e agora só destravo a conta-gotas. Fazer o quê... A respeito do que a Rosa sempre me diz, sobre desligar o complicador, o Tiago, meu colega, me disse uma coisa importantíssima: que o botão do complicador não é de liga/desliga, mas daqueles que vão baixando, gradualmente... Isso ajudou demais, pode crer. Vamos ver até onde eu o consigo baixar enquanto não chega o dia da estréia. Agora são 9:26. O despertador do Paulo já tocou váááárias vezes e ele não se levantou para seu compromisso às 10, em Gaia.
Dia 15 de março foi aniversário de 28 anos de casamento de Márcia e Lamartine e eles mesmos não se lembravam disso. Só se lembraram porque a Arisalva, que não falta em nenhuma data, ligou para dar os parabéns. Vê se pode uma coisa dessas? Essa não é uma data vulgar! Não pode ser assim esquecida! Por conta disso, comecei a escrever um texto com a maior quantidade de lembranças minhas, dos quatro ciclos de sete anos que estão se completam esse ano na nossa família, mas confesso, esqueci-me de continuá-lo... Espero fazê-lo antes da comemoração dos 29, com fé e dedicação, pois há muito a ser lembrado...
Finalmente! O Paulo acaba de se levantar! São 9:41. Ele tem 19 minutos para estar ao seu compromisso às 10, em Gaia. Viu? Sou boa na matemática, mesmo depois de uma noite de insônia e devaneios! Depois de sair do banheiro, o Paulo pegou um punhado de cereais, meteu na boca, apanhou o telemóvel e disse que ia enviar uma mensagem adiando seu compromisso para as 11:30. Aproveitei pra ser esperta e filar o cereal, mas infelizmente ele notou que tomei toda a sua "cola light" enquanto ele dormia e então tirou o pacote de perto de mim. heuhuee... Bom para os dois, pq eu tb não posso me esquecer de onde eu tenho que caber ainda hoje. No fim das contas, o Paulo ligou e remarcou o seu compromisso logo para as 14:30, que é pra não ter problema. Apagou todas as luzes e voltou a apagar (-se). E é nessa que eu vou... Ou pelo menos tentar...
"Então vem
Sorri
Porque nós dois
Estamos só de passagem
Pelas cidades desse mundo
Então vem
Vem e me ama
Por uns momentos profundos
"Se você vier pro que der e vier comigo eu te prometo o sol, se hoje o sol sair ou a chuva, se a chuva cair. Se você vier até onde a gente chegar, numa praça da beira do mar, um pedaço de qualquer lugar. E nesse dia branco, se branco ele for, esse tanto, esse canto de amor, se você quiser e vier pro que der e vier comigo. Se branco ele for, esse canto, esse tonto, esse tão grande amor. Grande amor, se você quiser e vier pro que der e vier comigo."
"Conta uma estória que, em algumas tribos africanas, um engenhoso método é utilizado para capturar macacos, que lhes servem de alimento. Como os macacos são muito espertos e vivem saltando nos galhos mais altos das árvores, os nativos desenvolveram o seguinte sistema: Pegam uma cumbuca de boca estreita e colocam dentro dela uma banana. Em seguida, amarram-na ao tronco de uma árvore freqüentada por macacos, afastam-se e esperam. Após isso, um macaco desce, olha dentro da cumbuca e vê a banana. Enfia sua mão, apanha a fruta, mas como a boca do recipiente é muito estreita, ele não consegue retirar a banana. Surge um dilema: se largar a banana, sua mão sai e ele pode ir embora livremente, caso contrário, continua preso na armadilha. Depois de um tempo, os nativos voltam e, tranqüilamente, capturam os macacos que teimosamente se recusam a largar as bananas."
Ai meu Deus... A vida é muito preciosa pra se trocar por uma banana!!
Mas tem umas bananas que são TÃO, mas TÃÃÃÃO difíceis de largar... Afe...