Este blog, atualmente, não passa de um meio de (quase) comunicação entre mim e os meus amores que deixei do outro lado do mar. Enquanto moro deste lado, só serve para eu pagar minha língua e falar de solidão e exprimir minhas saudades e dar poucas notícias e prestar alguma homenagem e admitir o medo que tenho de ser esquecida e citar meus novos apegos e ser tão baranga e dramática quanto puder.
Hoje o dia foi: acordar, sair, conferir que o mundo ainda não tinha pensado em mim até aquela hora, brigar por nada, argh! blarg! e ugh! pela rua afora até encontrar uma flor. depois comer, chegar ao palácio, encontrar com elas duas, admirar os pavões, os galos, os patos, os gansos, até os pombos e então ver um galo branco e gordo correr como se estivesse perdendo o autocarro e atrás dele um cão filhodaputa. tentar socorrer o galo depois de sacudido pela boca do cachorro, chorar com ele no colo imaginando o quão machucado estava, lavar o bicho na pia do banheiro e praguejar contra o maldito cão. deixar em segurança o galo semi-morto e ver o dito se levantar e caminhar como se nada tivesse acontecido. descer muito feliz para a grama de onde se vê o rio douro só com uma delas, enquanto a outra ia fazer o que tinha pra fazer, falar falar e falar, com atenção às gaivotas, ou melhor, aos cus delas. voltar da espera, ver outro galo com ar de apressado, descobrir novamente o cão, caçá-lo pelo parque, encontrá-lo lá longe e trazê-lo no colo até a portaria e decobrir então que era ela e não ele, que não era filhadaputa nem maldita, que era linda linda linda e fedorenta e tinha um olho de cada cor, que era ainda filhota e que, segundo o segurança, não tinha outro jeito com ela que não fosse entregá-la para a prefeitura (que abate os animais), pois já tentaram várias vezes colocá-la pra fora em vão. tentar voltar à vida normal sabendo que uma cadelinha tarada por sacanear frangos está solta e sem remédio, estarmos de novo as três, depois mais uma, comer com pavões à nossa volta e cadelinha e tchau pra uma das meninas. escrever "me liga", na última mensagem que podia enviar e depois ter que desligar o telefone, correr atrasada pra peça das 21:30, gostar demais da conta, muito, muito mesmo, depois telefonar em vão e de novo e de novo e de novo, ir embora puta, procurar num lugar, noutro, voltar, ligar, achar, encontrar e pronto, foi só isso.