.............................................................................................................o incomunicável...........................................................................................................



Este blog não pretende absolutamente nada, não tem nenhum compromisso com a verdade, não é um passatempo, nunca foi um diário e nem parte de estudos ou reflexões pessoais, nada disso. Aliás, ele não tem a menor razão de existir, mas existe mesmo assim, como a maioria das coisas.



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Terça-feira, Março 24, 2009


Se eu pudesse passava mais um dia inteiro daqueles. Cabeça apoiada na parede, corpo atravessado na cama, sem sapato pra não sujar o lençol, se houvesse. Um travesseiro sem fronha à mão, que beleza, melhorou, tava mesmo doendo o pescoço. Mais umas duas horas assim, antes de virar de lado, rosto sobre a mão direita, travesseiro sem fronha amparando a nuca e depois mudar de novo, talvez sentar. Se eu pudesse, pedia pra tocar seu hinário todo, desde o primeiro hino, que agora é o último, até o último que eu ainda não conheço e o meu cantava várias vezes, até aprender pra sempre, igualzinho tem que ser. Um dia inteiro, se eu pusesse ter, para lavar-me do ranço dos meus meios dias. Se eu tivesse mais um dia, ouvia as suas músicas todas. E depois mais outras músicas, todas as que você tem achado bonitas. Você sempre tem razão nas músicas que canta. E depois conversa. E depois poemas. E depois um silêncio inteiro, até eu ter que voltar.



mas pode falar, se quiser.

Domingo, Março 22, 2009


Hoje seria mais um dia de folga que eu teria desperdiçado se não tivesse falado com o meu pai no fim da noite. Falar com o meu pai é sempre revigorante, pena que já trabalho daqui algumas horas... O e-mail que recebi com meu trânsito astrológico atual disse que vou ter "problemas de ordem fútil" até o meio de maio. Eu comprei uma base de pão-de-ló, um doce de leite, uma compota de cereja, um chocolate culinário e um vidrinho de chocolate granulado para fazer um bolo e cantar parabéns para o Paulo. O Paulo fez 30 anos na sexta-feira, dia 20. Eu pensei durante algum tempo sobre o equinócio, tentei atribuir algum significado pessoal à chegada da primavera, mas nada aconteceu. A base de pão-de-ló continua na embalagem, escondida sob um monte de roupas em cima da mesa da sala, afastada dos recheios e coberturas, igualmente intocados. Essa casa não tem espaço. Nenhum. Falar com o meu pai foi bom pra caramba. Ele me contou dos cães, dos gatos e dos ratos. Não consegui falar com a minha mãe, nem com a minha vó e não me lembrei de mais nenhum número enquanto estava no telefone público. Não me lembro o que estávamos conversando quando o cartão acabou. Tenho vontade de fazer uns desenhos, desses desenhos só de pauzinhos mesmo, de mim e das minhas irmãs numas cenas legais das quais me lembro, pra postar no blog e falar alguma coisa. Não tenho muitas fotografias com as minhas irmãs. Eu tenho muitas fotografias. Queria ter feito isso dia 30 de novembro do ano passado, mas não tenho tempo e aqui não tem espaço. Aqui não é espaço. Queria ter mais fotografias com as minhas irmãs, mesmo que elas não estivessem aqui comigo, como a maioria das coisas que gosto e que tenho. As fotografias eu não tenho. Ninguém tem. Estou pensando em comprar um violão, o meu está lá longe e não é insubstituível. Muito pouca coisa é insubstituível. Eu lembro que nos meus cadernos de perguntas tinha essa pergunta: "Você se acha insubstituível?", que bobagem... Eu tenho muitas lembranças. Eu tenho muitas bobagens pra lembrar, afff... Eu era a psicopata do aniversário, mas passou. Os aniversários são mesmo dias comuns (!!!) e eu realmente não compreendia isso, juro. Aliás, eu não acreditava em quase nada do que tenho comprovado nos últimos dois anos. Falar com meu pai é bom a qualquer hora e nós nunca temos alguma coisa de que precisamos mesmo falar. A minha mãe fica preocupada. Sempre que falamos ela está preocupada. Eu estou preocupada e mais que isso, não consigo tempo para me ocupar mais do que realmente deveria. Vai passar. Eu não sei tocar violão. Nunca soube. No máximo eu cozinhava qualquer coisa, fazia umas entrevistas para o Portal e dava umas aulas divertidas. Meu pudim era bom, meu macarrão era bom, minhas batatas assadas eram boas e meu picadinho tropical ficou inacreditável, mas eu nunca mais consegui lembrar o que levou, então só fiz uma vez. Eu morria de saudade dos meus alunos, agora já passou. O bolo vai ficar para amanhã, depois do meu trabalho. Eu não tenho ciúmes dos meus amigos, mas aqui eu descobri que já tive. A minha folga está acabando e eu queria ter falado um pouco mais. O cartão acabou, não deu tempo, eu não lembrei, não tive espaço e todas as desculpas possíveis, mas eu não me desculpei.



mas pode falar, se quiser.

Sábado, Março 14, 2009


Proposta

casa comigo que é bom para a tosse. casa na árvore é o bom dessa vida. casa-comida-e-roupalavada. caso se encontre espere que eu ache.
caso consiga espere que eu arda. casa na árvore amanhã meio-dia. caso sem falta no fim desta tarde. case preguiça e roupa alargada. casa largada
e roupa comida. caso e comida na casa da árvore. caso contigo no fim dessa tarde.



mas pode falar, se quiser.

Quarta-feira, Março 11, 2009


Com a mala de dinheiro perdida

Deus me pague
Amém






mas pode falar, se quiser.

Sexta-feira, Março 06, 2009


Sonhos são.

Eu tinha acabado de tomar um banho longo e delicioso, em que tive pensamentos e revelações indizíveis, quando me bateram à porta. Comecei a descer por umas escadas encarpetadas, enrolada numa enorme toalha branca. Através dos vitrais coloridos das laterais da porta, vi um vulto bem definido, que tentava olhar para dentro da casa e de repente se afastou. "Me viu"- pensei, e fiquei com medo. Quando estava no último degrau, já estava vestida e já não me parecia comigo mesma, como pude constatar pelo espelhinho do hall. "Estou mais alta", concluí, apesar de estar mesmo totalmente diferente. Abri a porta e lá estava ele, já com ares de quem estava a espera há muito tempo. Era um menino branco, de cabelos pretos e escorridos, trazia uma mala velha marrom, vestia uma camiseta amarela, bermuda, chinelos de dedo e aparentava ter uns seis anos de idade. Assim que me aproximei, estendeu-me a mala que segurava e mostrou-me a palma das mãos, que juntas, formavam uma palavra que eu não conseguia ler. Fiz várias perguntas, mas o menino não respondia, estava bravo comigo. Olhei de novo para as mãos dele e agora estavam cobertas de um barro liso e espesso que não saía, mesmo que se esfregasse com força, pois assim o fiz durante muito tempo, num silêncio aterrador. Entramos numa espécie de transe. Os olhos do menino já estavam molhados da dor dos esfregões, quando enfim puxou para si as mãos e disse - "hoje é o meu aniversário". Com o susto do fim do silêncio voltei ao normal e me senti mal por ter machucado o menino, mas ele riu e completou - "quer ver o que eu faço no dia do meu aniversário?". Pousou as mãos de barro uma sobre a outra, polegar com polegar e enquanto os afastava surgia uma enorme flor laranja enraizada no barro sobre a palavra desconhecida. "Que coisa mais linda!"- brinquei com o menino, ao que respondeu muito satisfeito - "e dá pra comer, quer ver?" - e comeu a flor.


mas pode falar, se quiser.


Era uma vez fevereiro e eu nem vi passar.
Eu até estava de índia, mas nem me toquei que era carnaval.




mas pode falar, se quiser.




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