Este blog não pretende absolutamente nada, não tem nenhum compromisso com a verdade, não é um passatempo, nunca foi um diário e nem parte de estudos ou reflexões pessoais, nada disso. Aliás, ele não tem a menor razão de existir, mas existe mesmo assim, como a maioria das coisas.
sinto sua falta, mas muito mais a sua presença. mesmo aqui nesta cidade de concreto muito e natureza pouca, consigo sentir intimamente o chão de terra que você deve estar pisando exatamente agora. sinto o cheiro da cozinha fresca e lá de baixo, perto do poço, dos seus ares em torno de mim. sinto você lendo comigo e partilhando impressões do meu primeiro e tardio livro da Clarice, dividindo uma garrafa de qualquer coisa. você é meu amigo. eu posso ouvir daqui a sua risada sozinha e doida para a tv, vindo aí do seu quarto, que sempre me faz rir sozinha e doida sem saber do quê... há pouco tempo estive com uma figura interessantíssima e ao falarmos de você, pude dizer pra ela e pra mim mesma (pela primeira vez), que o meu pai é um cara livre. repeti isso para mim algumas vezes e é verdade, você é livre. sinto muito a sua presença quando tenho que dizer a mim mesma que não vale a pena dar importância ao que não é importante, mesmo que você nunca tenha me dito isso. e não disse. quando estou triste, ouvir sua voz é remédio e não existe outro no mundo que seja capaz de mudar tão instantaneamente o meu estado de humor. acabei de levar a mão ao peito para ajudar o coração e é incrível como nossa textura é igual, a mesma pele friinha e peganhenta que eu sinto quando lembro dos nossos abraços sem motivo. a sua trilha sonora, que é a melhor e mais variada de todas, ecoa humildemente desse lado de cá, para a portuguesada indiferente (porque nunca te viu passar cantando "bwana, bwana/ não sei cozinhar/ mas sou carinhosa/ e tenho talento/ pra boemia/ corre sangria nas minhas veias/ volúpia...") que não saca nada da fina interpretação. então eu rio com você da cara dos manés, respondo às piadas que você faz. nós somos malvados e irônicos às vezes, mas extremamente doces. eu racho o bico e você quase chora. é assim todo dia, muito bom ter você por dentro. "...o seu amor me cura de uma loucura qualquer..." e realmente não posso ser menos brega, porque isso é paixão de lascar e eu estou aqui, deste lado do mar, completamente inundada... e dá me cá esse vinho do porto. um brinde a você, meu velhinho. posted by Amana Rodrigues
4:30 PM
"Mañana es domingo
dia de respingo
se casa Juanito
con un pajarito
quien es la madrina?
D. Escotafina
quien es el padrino?
D. Pedro Carreras
que corta los culos
con unas tijeras"
tempo. parada escutando o som das coisas sendo ao meu redor e em mim. o colchão sob mim está sendo, solitário, estou sentindo. a estante e o aquário com a água e os tritões ibéricos e a bolota de musgo rodopiante dentro. tudo sendo, cada coisa e ao mesmo tempo. o guarda-roupa com as roupas, o guarda-chuva e a chuva que ainda vai chover, mas agora não. o céu que está mudando, alguma enxurrada, a estátua do baco plantada na praça da república, todo o tempo. só o tempo não está sendo nada, agora. aliás, o tempo nunca pode ser. a rua é. a cidade é. o mar é. tudo segue sendo. o cachorro na esquina, a esquina, a televisão com o tubo e os fios e a poeira, tudo o que não é o tempo, desde sempre e pra sempre, sendo. eu mesma sinto-me ser, agora mesmo, a todo vapor. e embora também sinta o tempo me lambendo a pele e os cabelos e os olhos e os órgãos e tudo o que está sendo em mim e fora, ele não está aqui, nem em lugar nenhum. posted by Amana Rodrigues
5:59 AM