Este blog não pretende absolutamente nada, não tem nenhum compromisso com a verdade, não é um passatempo, nunca foi um diário e nem parte de estudos ou reflexões pessoais, nada disso. Aliás, ele não tem a menor razão de existir, mas existe mesmo assim, como a maioria das coisas.
Até agora já aprendi que estou aqui para morrer um dia e até lá ver morrer todo dia o que já cumpre a sua hora. Até agora aprendi que ainda estou aqui e até agora. Se depois do depois aprenderei o contrário, eu não sei ainda. Mas já aprendi que tenho formato de estrela, como a maioria dos vivos e que tenho, assim, dedos ou cabelo nas pontas (as mãos acariciando outros cabelos, os pés se fundindo com o barro comum, os cabelos se embaraçando noutros tantos dedos, como todo mundo). Até agora suspiro. Então, sou toda eu uma corrente e parte de uma maior, infinita e minha barriga está presa por um cordão invisível à barriga da Eva primeira e da Ave última deste universo. Que preciso ainda aprender a ser Maria, aprender a parir um Jesus para ter a poderosa experiência de cantar sobre um berço. Que nem sempre que falei fui inspirada pelo divino espírito santo, mas que espero pelo perdão e socorro da santíssima providência com todo o fervor, sinceramente. Que meu vértice ancestral comemora, incha, pulsa, faminto e minha boca goza, desbocada. Que as palavras não têm o paladar que aparentam quando na minha própria língua. Que o silêncio não basta, mas tem que bastar, porque eu nunca sôo bem em voz alta. E que respiro mesmo assim, embora ainda não o saiba fazer na perfeição. posted by Amana Rodrigues
7:29 AM
Desde sempre a sua presença me sufocou e até hoje ainda sufoca, embora eu já esteja tão longe. Desde a sua chegada que o movimento é sempre de fuga quando sua história aparece. Eu não posso contra a sua história, ela é forte demais. Eu sou fraca, não convenço ninguém. Antes de você chegar eu já precisava de ajuda, mas ainda não sabia. Você foi tão evidente que levou tudo, de todos, de uma vez só. Mas não foi culpa sua, não tinha nada que você pudesse fazer além de querer sobreviver à tragédia. Então, você cresceu pra fora e eu cresci pra dentro. E nenhum de nós pode dizer que está feliz neste momento.
Ô meu filho, chora não...
chora não que a dor não passa
nem hoje nem quando casa
o mundo é assim mesmo, coração
chora não, filhim, chora não
se cê chorar a mãe chora
dessa tristeza de choro
e a choradeira em coro
embora até seja bonita
só deixa a mãe mais aflita
vem cá, meu anjim, no meu colo
afunda os olhim no meu peito
inunda, que se tivesse jeito
sua mãezinha já tinha
destransformado essa vida
mas como não tem saída
que não seja a saída da sorte
vamo cumprir nossa morte
nos degraus dessa subida
Vem cá, filhim, lê um livro
cata lenha, acende foguim
ouve disco, canta música
bebe água da bica, refresca
brinca com cachorrim, faz festa
faz amor, faz carinho, se liberta...
E presta atenção pra poder
ver inda ao longe esse trem
que já tá logo ali na curva
então, limpa essa vista turva
e enxuga os olhinhos, meu bem
pra ver além da madrugada
porque o dia não tarda e já vem"